domingo, 6 de março de 2011

II Concílio de Constantinopla (553)


Os «Três Capítulos»
Os Cânones do II Concílio de Constantinopla (553)
Mansi, IX.375, D ss



[As obras de três teólogos nestorianos ou seminestorianos, Teodoro de Mopsuéstia (ver Parte I, Seção V, II), Teodoreto de Ciro e Ibas de Edessa, tinham sido resumidas como os "três capítulos" e aprovadas em Calcedônia. Mas os monofisitas pressionaram o Imperador justiniano através de sua mulher Teodora, conseguindo que ele condenasse os "três capítulos" por um edito em 543. O Papa Virgílio foi persuadido, ou intimidado, a confirmar essa condenação, mas a opinião surgida no Ocidente o levou a solicitar a convocação de um concílio ecumênico, que se reuniu em Constantinopla e condenou os "capítulos". Assim, "o Oriente foi reconciliado às custas do Ocidente" (M. Deanesley, History of the Medieval Church, p. 11).]

1. Se alguém não reconhece a única natureza ou substância (oysia) do Pai, Filho e Espírito Santo, sua única virtude e poder, uma Trindade consubstancial, uma só divindade adorada em três pessoas (hypostáseis) ou caracteres (prósôpa), seja anátema. Porque existe um só Deus e Pai, do qual procedem todas as coisas, e um só Senhor Jesus Cristo, através do qual são todas as coisas, e um só Espírito Santo, no qual estão todas as coisas.
2. Se alguém não confessa que há duas concepções do Verbo de Deus, uma antes dos tempos, do Pai, intemporal e incorporal, e a outra nos últimos dias, concepção da mesma pessoa, que desceu do céu e foi feito carne por obra do Espírito Santo e da gloriosa Genitora de Deus e sempre virgem Maria, e que dela nasceu, seja anátema.
3. Se alguém disser que existiu um Deus-Verbo, que fez os milagres, e um Outro Cristo, que sofreu, ou que Deus, o Verbo, estava com Cristo quando nasceu de uma mulher, ou que estava nele como uma pessoa em outra, e que ele não era um só e o mesmo Senhor Jesus Cristo, encarnado e feito homem, e que os milagres e os sofrimentos que ele suportou voluntariamente na carne não pertenciam à mesma pessoa, seja anátema.

4. Se alguém disser que a união de Deus, o Verbo, com o homem foi feita quanto à graça, ou à ação, ou à igualdade de honra ou autoridade, ou que era relativa ou temporária ou dinâmica1 ou que era conforme o beneplácito (do Verbo), sendo que o Deus Verbo se comprazia com o homem...
5. Se alguém conceber a única personalidade (hypóstasis) de nosso Senhor Jesus Cristo de tal modo que permita ver nela diversas personalidades, tentando introduzir por este meio duas personalidades ou dois caracteres no mistério de Cristo, dizendo que dessas duas personalidades introduzidas por ele provém uma única personalidade quanto à dignidade, à honra e à adoração, como Teodoro e Nestório escreveram em sua loucura, caluniando o santo Concílio de Calcedônia ao alegar que a expressão "uma personalidade" foi por ele usada com essa ímpia intenção; e se não confessar que o Verbo de Deus foi unido à carne quanto à personalidade (kath' hypóstasin)...

6. Se alguém aplicar à gloriosa e sempre virgem Maria o título de "genitora de Deus" (theotókos) num sentido irreal e não verdadeiro, como se um simples homem tivesse nascido dela e não o Deus Verbo feito carne e dela nascido, enquanto o nascimento só deve ser "relacionado" com Deus o Verbo, como dizem, porquanto ele estava com o homem que foi nascido...
10. Se alguém não confessar que aquele que foi crucificado na carne, Nosso Senhor Jesus Cristo, é o verdadeiro Deus e Senhor da glória, parte da santa Trindade, seja anátema.
[Os quatro cânones restantes tratam com mais pormenores das opiniões dos três teólogos.]

Concílio de Calcedônia


Concílio de Calcedônia

Definição de fé:
Este magno e universal Sínodo, reunido pela graça de Deus e pela vontade dos muito piedosos e muito cristãos nossos imperadores, os augustos Valenciano e Marciano, na Metrópole da Calcedônia da Bitinia, em templo da Santa e vitoriosa mártir Eufemia, define quanto segue:
Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, confirmando a seus discípulos no conhecimento da fé, disse; Dou-lhes minha paz, minha paz lhes deixo, para que nenhum dissentisse de seu próximo dos dogmas da piedade, e se demonstrasse verdadeiro o anúncio da verdade. E por quanto o maligno não cessa de obstaculizar, com seu joio, semeia-a da piedade e de procurar sempre algo novo contra a verdade, Deus, como sempre, provê ao gênero humano e inspirou um grande zelo a este nosso piedoso e fidelíssimo imperador, e chamou a si, desde todas partes, aos chefes do sacerdócio, para que, com a graça do senhor de todos nós, Cristo, afastássemos toda peste de engano das ovelhas de Cristo, e os restaurássemos com o alimento da verdade. O que fizemos, proscrevendo com voto comum as falsas doutrinas, e renovando nossa adesão à fé ortodoxa dos padres, pregando a todos o símbolo dos 318 (padres de Nicéia), e reconhecendo como padres próprios a aqueles que acolheram esta síntese da piedade, e aquela dos 150 que se reuniram na grande Constantinopla e confirmaram também eles a mesma fé.
Confirmando também nós, as decisões e as fórmulas de fé do concílio reunido outrora em Efeso (431) que presidiram Celestino (bispo) dos romanos e Cirilo (bispo) dos alexandrinos, de santíssima memória, definimos que tem que resplandecer a exposição da reta e descontaminada fé, feita pelos 315 Santos e bem-aventurados padres reunidos em Nicéia (325), sob o Imperador Constantino, de feliz memória, e que se deve manter em vigor quantos foi decretado pelos 150 santos padres de Constantinopla (381) para extirpar as heresias que então germinavam, e reafirmar nossa mesma fé católica e apostólica.
(Neste ponto se repetem os símbolos da fé de Nicéia e Constantinopla)
Teria sido, então, suficiente para o pleno conhecimento e confirmação da piedade este sábio e saudável símbolo da divina graça. Na verdade, ensina o que melhor se pode pensar com relação ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, e apresenta, a quem o acolhe com fé, a encarnação do Senhor.

Mas dado que aqueles que tratam de frear o anúncio da verdade, com suas heresias cunharam novas expressões: alguns tratam de alterar o mistério da economia da encarnação do Senhor para nós, rechaçando a expressão Teotokos [Mãe de Deus] para a Virgem; outros introduzem confusão, misturam e imaginam bobamente que é uma única àquela natureza da carne e aquela outra da divindade; e sustentam absurdamente que a natureza divina do unigênito pela confusão possa sofrer; por tudo isto, o atual, santo, magno e universal sínodo, querendo impedir toda reação contra a verdade, ensina que o conteúdo desta predicação foi sempre idêntico, e estabelece, primeiro que tudo, que a fé dos 318 santos padres deve ser intangível; confirma a doutrina em torno da natureza do Espírito, transmitida em tempos posteriores pelos padres reunidos na cidade real, contra aqueles que combateram ao Espírito Santo, doutrina que eles declararam a todos, não certamente para adicionar nada ao que antes se sustentava, a não ser para demonstrar com o testemunho da escritura, seu pensamento sobre o Espírito santo, contra aqueles que tratavam de negar o senhorio- Contra aqueles, em seguida, que tratam de alterar o mistério da economia, e alegam que seja só homem aquele que nasceu da Santa Virgem Maria, (este concílio) faz suas as cartas sinodais do bem-aventurado Cirilo, que foi pastor da Igreja de Alexandria, a Nestório e aos orientais, como adequadas tanto para contradizer a loucura nestoriana, para dar uma clara explicação a aqueles que desejassem conhecer com piedoso zelo o verdadeiro sentido do símbolo de salvação. A isto apontou, e com justiça, contra as falsas concepções e para a confirmação da verdadeira doutrina a carta do Pontífice Leão, muito santo arcebispo da enorme e antiqüíssima cidade de Roma, escrita ao arcebispo Flaviano, da santa memória, para refutar a malvada concepção de Eutiques; ela, de fato, está em harmonia com a confissão do grande Pedro; e é para nós uma coluna comum. (Este concílio), de fato, opõe-se a aqueles que tratam de separar em dois fios o mistério da divina economia; separam-se do sagrado consenso aqueles que se atrevem a declarar passível a divindade do Unigênito; resiste a aqueles que pensam em uma mistura ou confusão das duas naturezas de Cristo, e expulsa a aqueles que afirmam, insanamente, que tenha sido celestial, ou de qualquer outra substância a forma humana de servo que Ele assumiu de nós, e excomunga, enfim, a aqueles que fabulam de duas naturezas do senhor antes da união e uma só depois desta união.
Seguindo então, aos Santos Padres, unanimemente ensinamos a confessar um solo e mesmo Filho: nosso senhor Jesus Cristo, perfeito em sua divindade e perfeito em sua humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem (composto) de alma racional e de corpo, consubstancial ao Pai pela divindade, e consubstancial a nós pela humanidade, similar em tudo a nós, exceto no pecado, gerado pelo Pai antes dos séculos segundo a divindade, e, nestes últimos tempos, por nós e por nossa salvação, engendrado na Maria virgem e mãe de Deus, segundo a humanidade: um e o mesmo Cristo senhor unigênito; no que têm que se reconhecer duas naturezas, sem confusão, imutáveis, indivisas, inseparáveis, não tendo diminuído a diferença das naturezas por causa da união, mas sim mas bem tendo sido assegurada a propriedade de cada uma das naturezas, que concorrem a formar uma só pessoa. Ele não está dividido ou separado em duas pessoas, mas sim é um único e mesmo Filho Unigênito, Deus, Verbo, e Senhor Jesus Cristo como primeiro os profetas e mais tarde o mesmo Jesus Cristo o ensinou que si e como nos transmitiu isso o símbolo dos padres.
Estabelecido isto por nós com toda a diligência possível, define o santo e universal sínodo que não seja lícito a ninguém apresentar ou inclusive escrever ou compor uma fórmula de fé diversa, como tampouco acreditar ou ensinar de um modo distinto. Aqueles que logo ousarem ou compor uma fórmula diversa de fé ou apresentá-la, ou ensiná-la, ou transmitir um símbolo diverso a aqueles que tratam de converter-se do helenismo ao conhecimento da verdade, ou do judaísmo, ou de qualquer heresia, todos eles, se forem clérigos ou bispos, sejam suspensos, o bispo, de sua sede, o clérigo do ministério, ou se fossem laicos ou monges, deverão ser excomungados.

Há espaço para Deus no mundo moderno? Teologia da Impotência...


Há espaço para Deus no mundo moderno?

Por: Vanderson de Sousa Silva, Mestrando em Teologia pela PUC-RJ, pedagogo, filósofo e graduando-se em Ciência Social na UFF. (semvanderson@hotmail.com)

Basta olharmos a história recente para verificarmos a tentativa de correntes do pensamento moderno em apagar Deus da história humana:
• filósofos - “Deus está morto” (Nietzsche),
• ideólogos decretaram a extinção da religião e a definiram como “ópio do povo” (K. Marx),
• sociólogos defendiam que na sociedade do futura não se teria espaço para a fé em Deus.
• o sistema comunista stalinista, tentou apagar da Polônia e da ex-União Soviética toda a marca da religiosidade, visto que, acreditavam que na “nova sociedade” o “novo homem”, não necessitaria de Deus.
• Teoria da Evolução de Darwin em suas vertentes mais cientificistas e reducionistas querem reduzir o homem,
• Niilismo, com toda a sua “i-lógica” do nada, esta corrente impregnou desde a educação até a teologia.
• Pessimismo existencialista de Sartre e Schopenhauer,
• Teísmo - um Deus criado à imagem e semelhança do homem para satisfazer as necessidades intelectuais e afetivas.
• Fideísmo – com toda a irracionalidade negando a contribuição da razão no dado da Revelação, uma verdadeira: “sola fidei”
• Racionalismo – com toda a irracionalidade negando a contribuição da fé: “sola ratio”.
No entanto, nenhuma corrente de pensamento questiona mais a existência de Deus, quanto a realidade do mal, do sofrimento, a dor e as injustiças. Estas foram reunidas em um acontecimento – Auschwistz .
O mundo parou perplexo diante das atrocidades feitas nos campos de concentração. O horror da barbárie humana, o grito silencioso das vítimas, tornaram-se ícones: do “desespero humano” de um lado e por outro, da “maldade humana”. A humanidade, após Auschwistz depara-se com a questão: Onde estava Deus? Pode-se ainda crer em um Deus, após Auschwistz ?
A mesma questão, o Papa Bento XVI colocou quando esteve em visita ao campo de concentração de Auschwitz, na Alemanha. O Pontífice não estava resvalando na sua fé pessoal em Deus, mas antes, não temendo colocar no diálogo – fé e razão, a questão acima posta. Busca-se a razoabilidade da mesma, frente a um mundo que “ateu” ou “pseudo-religioso”, olha para Auschwistz como o local da “morte de Deus”.
Neste diálogo, dever-se-ia colocar antes a questão: onde estava a humanidade?
Humanidade no sentido das pessoas da época – políticos-estadistas, intelectuais, artistas, etc..., bem como a “humanidade” dos mentores e executores do projeto “auschwistz” . Humanidade enquanto adjetivo, que mais que qualificar nossa espécie, nos define e distingue.
Ao colocarmos a pergunta – onde estava Deus? - buscamos mascarar a verdadeira questão. Esta deve ser posta de forma imperativa para buscar a responsabilidade do homem - onde estava a humanidade? - não transferindo para Deus, aquilo que nos compete, enquanto pertencentes a “homeridade” .
Interessante notar esta tendência hodierna, afirma-se o “ateísmo” de forma bem sutil, secularizando motivações sagradas, mas ao mesmo tempo em momentos cruciais em que será o homem chamado a responsabilidade, desviamos de nós a questão remetendo-a ao Divino. Somos como crianças imaturas,que diante de algo que fizemos de errado, logo acusamos um outro, para se fugir da responsabilidade.
Auschwistz, constitui-se no marco de divisão entre o ético e a “monstruosidade”. O homem pode lançar-se de um extremo ao outro, é capaz de alcançar o mais alto grau de humanização e educação, e descer ao mais ínfimo processo de desconstrução do que de mais pleno se tem, em ser HOMEM.
Porém, a legitimidade da pergunta: onde estava Deus? - é valida no sentido de nos confrontar com a questão de fundo de todo ser humano – a existência da transcendência. O problema posto, é de como pode um “Deus-amor” permanecer indiferente a dor humana.
Duas questão estão no fundo: a primeira, da transferência de nosso ser para o Ser de Deus, temos uma necessidade de “antropomorfizar” a Divindade, para identificarmo-nos; um segundo, a não responsabilidade pelos atos, o ter que achar “o culpado”, para esquivar-nos do imperativo ético de co-responsabilidade e “cuidado” pelo “outro”.
Aprofundando a primeira questão: o antropomorfismo é uma presença na religiosidade antiga, não é privilégio hodierno. A Sagrada escritura, já utiliza-se deste recurso:
• No mito da Criação, Deus possui mãos para modelar o homem, passeia no jardim do Éden...
• Os profetas recorrem a este recurso, Deus possuindo entranhas, Deus como oleiro á modelar a argila, ciúmes de Israel em relação a idolatria, etc...
• Deus tendo sentimentos: ira, compaixão, ciúmes, arrependendo-se de ter criado o homem, vingar-se dos inimigos, etc...
Estes antropomorfismos, existem, pois, o homem só pode expressar-se a partir do contexto
em que vive – cultura, língua, ciência etc... - assim, Deus ao revelar-se ao hagiógrafo sabe-se condicionado as contingências do escritor e este, transporta para Deus realidades proeminentemente humanas, visto que, somente conhece o “mundo dos homens”.
Poder-se-ia, constatar por conseguinte que invariavelmente as “propostas” religiosas tem como substrato o constante recurso do antropomorfismo, visto que, a experiência humana de Deus é sempre mediatizada pelo próprio limite do humano. Não poderia o mesmo, dizer algo da Transcendência sem que antes, esta lhe revelasse algo de seu ser. Mesmo este dado revelado sera como que impregnado de condicionamentos humanos.
Digo tudo isto, pois para o homem que “olha” Auschwistz e antropomorfiza a Divindade, esperando da mesma, atitudes de onipotência, constata um paradoxo – Auschwistz é o testemunho da impotência de um Deus!
Analisemos um pouco todo o discurso teológico acerca da onipotência do Deus cristão. A própria liturgia cristã, assevera um discurso afirmativo sobre um Deus “Todo-poderoso”, basta algumas orações:

“Omnípotens Deus et, dimíssis peccátis nostris, perdúcat nos ad vitm aeternam” (Oração de conclusão do ato penitencial)

“Que o Deus todo-poderoso vos abençoe no dia de hoje, quando o seu Filho penetrou no mais alto dos céus, abrindo o caminho para a vossa ascensão” (Fórmula de benção – Ascensão do Senhor)

“Deus todo-poderoso, pelas preces de São José, a quem santificastes as primícias da Igreja, concedei que ela possa levar à plenitude os mistérios da salvação. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do espírito Santo.” (Oração da Solenidade de S. José – 19 de Março)

A própria catequese em seu discurso sobre a definição, “de quem é Deus?”, responde – um ser perfeitíssimo, onipotente, onipresente e onisciente. Todo um discurso popular do “senso comum cristão”, caminha nesta mesma afirmação, do total poder de Deus em relação a tudo o existente: “para Deus nada é impossível...”, “Deus pode, poder tudo...”, “se Deus quiser, eu farei...”.
A fundamentação de todo este discurso da “onipotência” de Deus, tem seu lugar em alguns textos da Sagrada Escritura, não raras vezes, estas perícopes são descontextualizadas de uma exegese correta, vejamos alguns exemplares:
• “Para Deus, com efeito, nada é impossível” (Evangelho segundo Lucas 1, 37)
• “Tu te compadeces de todos, porque tudo podes” (Livro da Sabedoria – Sb 11, 23)
• “Ele faz todo o que quer” (Salmo 115, 3)
• “...o Poderoso de Jacó” (Livro do Gêneses - Gn 49, 24)
• “Teu grande poder está sempre a teu serviço, e quem pode resistir à sua força?” (Livro da Sabedoria - Sb 11, 21)
• “Graças vos damos, Senhor Deus onipotente...” (Ap 11, 17)
De todos os atributos divinos, somente o de “onipotente” é figurado como parte do ato de fé da Igreja, exemplo disto, decorre-se do fato de ter sido inserido no “Símbolo da Fé”, ou credo, a seguinte proposição: “Creio em Deus pai todo-poderoso...” . Tamanha é a importância que se concede a afirmação do poderio de Deus, como parte da compreensão da Sagrada Escritura e da própria fé da Igreja no mistério de um Deus criador.
Mas, como pode-se conjugar a fé num Deus que “pode fazer tudo” e que não se move em direção à dor de tantos homens, mulheres, idosos e crianças nos campos de concentração e ainda hoje, em tantas catástrofes e injustiças em meio a dor humana?
O que o Papa Bento XVI, fez diante do “ícone” da dor humana – Auschwistz, foi exatamente declarar ao mundo, que tanto questiona a presença, ou melhor, a não-presença do Deus cristão frente a dor humana, de que o Deus cristão é impotente.
Por mais paradoxal que seja esta constatação, ela revela a melhor face da teologia cristã, ou ainda, a mais bela definição do Deus revelado em Jesus Cristo, nosso Deus manifesta-se na fraqueza. Pensemos na afirmação do apóstolo dos gentios, Paulo, “...pois é na fraqueza que a força manifesta todo o seu poder” (2 Cor 12, 9). Somente a fé pode discernir quando a onipotência divina “se manifesta na fraqueza...” da impotência. Assim descreve Bruno Forte:

É também sob esta luz que se lê a onipotência divina: tudo pode no amor, é certo, aquele que é a absoluta plenitude da vida! No amor ele pode tudo ordenar ao bem: é o mistério da sua providência! Justamente porque o seu poder infinito o é no amor, e o amor é infinitamente na liberdade, Deus nunca exerce o poder de sua providência contra a liberdade da criatura: prefere parecer impotente ou surdo ante os gemidos dos moribundos!

Em muitas orações litúrgicas e textos da Sagrada Escritura, encontramos aquilo que o Papa Bento XVI nos apresenta. As orações litúrgicas propostas pela Igreja aos fiéis, além de cumprir uma finalidade de confiança e adoração à Deus, estas fazem, com que a prece do orante, seja sempre dirigida ao Pai, pelo Filho, no Espírito Santo. “Tudo vem do Pai pelo Filho no Espírito; e tudo, no mesmo Espírito, pelo Filho ao Pai”.
Há um sentido para isto, reza-se a um Deus que é Pai e misericordioso, e também “todo-poderoso”, sua paternidade e poder iluminam-se mutuamente. Percebe-se bem esta frase com a seguinte perícope: “Serei para vós um pai, e sereis para mim filhos e filhas, diz o Senhor todo-poderoso.” (2 Cor 6, 18), onde Paulo, faz uma citação do Livro de Samuel – 2 Sm 7,14. Paternidade, onipotência e impotência em Deus são como que faces de um mesmo prisma, onde “poder” é fraqueza e paternidade é impotência.
Auschwistz, põe a fé em Deus à prova pela experiência do mal e do sofrimento, estes como realidades que em muito ultrapassam a compreensão do homem, permitem ao mesmo, questionar: como pode um Ser que é a Bondade, a Beleza, o Uno e a Verdade, co-existir com a maldade e não reagir com “poder” para destruir o mal, a feiura e a mentira?
A teologia cristã apresenta um paradoxo – Deus revela sua onipotência da maneira mais misteriosa na “kenose” voluntária, na Encarnação e morte na cruz, onde Jesus “embora sendo de divina condição... não se apegou ciosamente a ser igual em natureza a Deus pai. Porém esvaziou-se de sua glória e assumiu a condição de um escravo, fazendo-se aos homens semelhante”. Cristo é a revelação do “Deus absconditus”, sendo Ele próprio o ícone da “impotência” de um Deus onipotente; a onipotência está no amor aos homens e a impotência no mesmo amor. Enganar-se-ia, quem tomasse a palavra “amor” em sua restrição lexical, numa hermenêutica do amor humano, visto que, em Deus “amor” é sua essência e seu ser - “Deus é amor” (1 Jo 4, 8), esta é a palavra mais assustadora de toda a Sagrada Escritura.
Na Encarnação, Deus se fez homem, “o Verbo se fez carne e armou sua tenda no meio de nós e vimos a sua glória” (Jo 1, 14), o texto joanino em duas palavras: “fez carne” e “sua glória” coloca a contradição do Deus revelado em Jesus Cristo diante de nós. Como pode um Deus se esvaziar, não se apegar a sua condição divina e num “empobrecimento”, assumir nossa “carne” com todas as implicações – dor, morte, limites, fragilidades etc... - e ainda mostrar a sua glória?
Este é o Deus revelado na pequenez do menino Jesus, o Deus cristão se faz “bebê”. Aceita voluntariamente ser preso, açoitado, recebe cusparadas e bofetões, é crucificado e morre na cruz. Neste ato de amor revela-se “impotente”, fraco e pequeno, no entanto, vence o mal com toda a sua onipotência. Em Deus a fraqueza é onipotente e a onipotência é impotência.
Assim, Cristo crucificado é “poder de Deus e sabedoria de Deus. Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1, 25).
Somente a fé possibilita acesso aos caminhos misteriosos da onipotência-impotente de Deus. Esta fé gloria-se de suas fraquezas, “pois é na fraqueza que a força manifesta todo o seu poder...” (2Cr 12, 9). Assim, Deus frente a Auschwistz e toda a dor e sofrimento humano é onipotente na impotência, sem deixar de manifestar sua força, no Amor. Deus ama em meio ao ódio, salva em meio a condenação e já deu a última palavra em relação ao mal e o pecado – Jesus Cristo Ressuscitado.
A outra questão a ser melhor abordada é a transferência de responsabilidades. Esta reação é encontrada também no mito da Criação no livro do Gênesis, onde após comer a fruta proibida e questionado por Deus, adão joga a culpa na mulher, esta por sua vez, na serpente. A moderna psicologia clareia esta necessidade de não responsabilizar-se pelo atos, transferindo a outros/coisas a culpa, seja para livrar-se da mesma por medo das consequências, ou ainda por querer a vingança, temos que achar o “bode expiatório” .
Auschwistz, deve estar diante de nossos olhos, não para buscarmos “culpados”, mas antes, para não permitirmos que ainda hoje, faça o homem, qualquer ação, onde a ética/moral e a inviolabilidade da vida humana não sejam imperativos. A religião, muito tem a contribuir como marco delimitador e sensor, até mesmo, coercitivo da consciência do homem, lembrando-o dos valores transcendentais de virtude: temperança, justiça, bondade, equidade etc..., bem como as consequências de nossos atos, como nos faz a escatologia.
No entanto, verifica-se um aumento da “espiritualização” e transcendência no homem contemporâneo, ainda que vivamos em uma sociedade pagã e des-sacralizada, em que se negam as origens cristã do pensamento e estruturas intelectuais, culturais e estatais do Ocidente, há fé e experiência de transcendência , ainda que paradoxal na contra-mão do paganismo moderno.
Muito pertinente é a palavra do teólogo italiano, Bruno Forte:

Quem discorre sobre Deus tem o encargo de transpor esse limiar em ambas as direções, para perscrutar no 'Deus revelatus' o 'Deus absconditus' e contar, assim, na história dos homens a história de Deus [...]

Esta constitui-se na mais bela missão de “quem discorre sobe Deus...”, fazer o Deus escondido no mistério de sua transcendência, revelar-se na história humana, transformando-a em história de Salvação.

2. A “ditadura do relativismo” - patologia do pensamento moderno.

Por: Vanderson de Sousa Silva, Mestrando em Teologia pela PUC-RJ, pedagogo, filósofo e graduando-se em Ciências Sociais pela UFF. (semvanderson@hotmail.com)


O pensamento Ocidental marcadamente teve a influência do Cristianismo, enquanto este possibilitou ao ato de pensar o imperativo da “busca da Verdade”. A verdade, enquanto meta do pensamento do homem foi perseguida desde os primeiros filósofos jônicos, eleatas e da “arché”. Pensemos em Parmênides, Heráclito, Pitágoras e ainda mais, na sede de encontrar a verdade, em Sócrates, em sua aceitação da morte por acreditar em seu encontro com a experiência única da verdade; um Platão, com sua teoria da iluminação, do mito da caverna; Aristóteles, Plotino, Avicena, Averróis. Os medievais, Duns Scoto, Tomás de Aquino, um Boaventura, Abelardo, para não citar outros.
Contudo, na modernidade, Descartes com seu “método cartesiano” revoluciona a forma de “fazer” o ato de pensar do homem, com seu famoso adágio - “penso, logo existo”, Descartes desconstrói a relação ato de pensar-verdade. Partindo da dúvida, Descartes, busca um “porto seguro”, visto que a própria inteligência tende para a verdade, é pelo “ato de pensar” que se vai excluindo o erro e depurando o real, neste processo de lapidação pela inteligibilidade, o pensante alcança a verdade do pensado, assim, Descartes somente aceita a verdade inicial do “pensar, logo existo”. Ainda que a “plenitude” da verdade, seja para alguns dificilmente atingível, pela depuração e exclusão do erro, vai-se galgando uma escala: distanciamento da inverdade e aproximação da Verdade.
Uma nova corrente de filósofos modernos, sejam pró-cartesianos ou ante-cartesianos, vão progressivamente desvinculando a verdade como realidade a ser alcançada pelo ato de pensar e sua adequação com o real. O adequatio intelectus in res de Tomas de Aquino e de toda uma corrente aristotélica e do aristotelismo, vai sendo, substituída pela ''adequação da verdade á prova técnico-científica”.
Vivemos na “ditadura do relativismo”. O que viria a ser esta “ditadura do relativismo”? O que esta esconde por trás de um discurso da diversidade? A ditadura é uma imposição de algo as pessoas, sem concedê-las liberdade, esta encontra-se sob a tutela de outrem de forma desrespeitosa, é uma violação do maior bem do homem – a liberdade.
Enquanto, o relativismo é a totemização do relativo. Que existam coisas relativas, é inegável, o que torna-a tão perigosa é a generalização de que “tudo é relativo” e a sutil, mas destruidora convicção moderna de que anunciar a Verdade e a fé, é desrespeitar a diversidade, é ser anti-ecumênico, anti-científico... é ser fundamentalista.
A “ditadura do relativismo” impregnou todas as esferas: sócio-políticas, acadêmicas, artísticas, teológicas e bem como das religiões. Poder-se-ai, até mesmo afirmar que esta “ditadura do relativismo” tornou-se parte do pensamento moderno, digo isto, enquanto, que esta, passou a ocupar todas as esferas sociais, intelectuais, as manifestações artísticas e o próprio “modo de pensar” hodierno, como parte constitutiva do esquema mental humano.

No seio da própria Igreja, há um discurso falacioso de que não deve-se mais anunciar nem mesmo a universalidade salvífica de Cristo, ponto até então central e nuclear da Profissão de Fé cristã, agora posto em cheque por um falso-ecumenismo, uma pseudo-missionaridade e mais falso-diálogo inter-religioso.
O que soa, ainda mais paradoxal nesta “ditadura do relativismo teológico” é que o Cristianismo anuncia não um sistema filosófico, uma moral universal, ou ainda, uma caridade do assistencialismo, muito menos, uma “filosofia de auto-ajuda”, mas antes uma pessoa – Jesus Cristo. E este diz: “conhecereis a VERDADE e ela vos libertará”, ou ainda “Eu sou... a Verdade”. No entanto, os arautos da moderna “teologia”, querem esconder a VERDADE, visto que esta para eles é relativa.
Encontramo-nos em meio a uma verdadeira crise do sentido da verdade. Crise esta, que leva-nos a um sentimento de insegurança frente a um mundo de total relativização. Esta crise moderna pode ser observada em todos os segmentos da vida moderna:
• crise da educação – falta de uma direção para o próprio sentido e significação do ato de ensino-aprendizagem;
• crise da família – identidade, novos modelos de “família” (casais homossexuais, filhos de barriga de aluguel, adoções etc...);
• crise da autoridade – seja constituída (poderes políticos, Forças armadas, Polícia - a quem defendem: as elites? etc...);
• crise Ética – o que fundamenta o que é ou não ético? (pesquisas com embriões, aborto, eutanásia, pena de morte, menoridade penal etc...);
• crise política – existe ética na política? O que é ser um homem público? (Interesses pessoais, nepotismo, troca-troca dos partidos etc...)

A “ditadura do relativismo” - o homem, a ciência, a verdade e a fé

Por: Vanderson de Sousa Silva, Mestrando em Teologia pela PUC-RJ, pedagogo, filósofo e graduando-se em Ciências Sociais pela UFF. (semvanderson@hotmail.com)

1. A pseudo-redenção científica


Muitas correntes filosóficas, políticas, sociológicas e teológicas, vislumbram o homem de forma muito otimista e até mesmo, ingênua. Não seria este o problema enfrentado pela modernidade que construiu seu “arca bolso”, sob uma concepção demasiado otimista do homem e da ciência produzida por este?
O homem moderno, vislumbrado com o avanço científico e as conquistas da razão humana, construiu sua cosmovisão, na razão e nos ditames do critério empírico-científico. O único critério de verdade passou a ser a razão, não a racionabilidade humana, que deve sim ser critério de verdade, mas antes, o raciocínio científico, provado empiricamente. Percebe-se a diferença entre racionabilidade e raciocínio “científico”? Mesmo que sutil a primeira vista, na verdade constitui-se um “grande abismo”.
A modernidade substituiu a razão, enquanto razoabilidade e raciocínio, pelo raciocínio científico de caráter matemático-empirista e mais ainda, este como critério de verificação do que é verdadeiro. A “Verdade” não mais é critério da própria razão, mas antes a “razão cientificista” é o critério para a verdade, enquanto a ciência demarca o que é falso do que é “verdadeiro”.
Esta substituição, ou melhor, esta usurpação indevida, gerou quase um endeusamento da ciência. A Modernidade acreditou que a ciência seria sua redentora, que com o progresso científico se chegaria a um mundo quase paradisíaco, onde pela ciência se chegaria a controlar tudo: o homem e a natureza. E por que não a Deus?
Esta “deusa moderna” – a Razão Científica, conduziu o homem a uma postura nunca observada antes na história. Muitas correntes modernas de índole científico-ideológicas e sócio-políticas, levaram a uma ruptura total com a história passada, visto que, a verdadeira evolução da razão, faz-se na continuidade-descontinuada de aspectos, já vislumbrados pelas gerações humanas que nos precederam, nunca uma postura de total indiferença pelo “já pensado do homem”. A vanguarda, enquanto, busca do “novo”, pode mascarar a “evolução”, que na realidade torna-se um desprezo pelo “caminho” já percorrido. Não permitindo ao homem continuar o “caminho”, mas antes ignorando o “passado”, caminha às apalpadelas na escuridão do conhecimento que gera a verdade, seja ela, negativa ou positiva.
Entre as correntes modernas destacam-se: marxismo, existencialismo, historicismo, políticas totalitaristas, comunismo, niilismo, cientificismo, teorias psicológicas reducionistas etc... Estas correntes de pensamento moderno não cumpriram seu papel de “verdadeira ciência”, visto que, excluíam aspectos, parcialmente ou totalmente da realidade.
Sendo o homem e a natureza seres complexos, não abarcariam estas correntes particularistas e excludentes a complexidade dos mesmos. Não alcança-se a “verdade da razão” absolutizando aspectos parciais em detrimento de outros, exemplificando: olhar o psiquismo do homem somente pela ótica da sexualidade-afetividade seria um erro. O homem é um ser sexual, de fato, este aspecto exerce influência sobre seu ser - psíquico, físico, volitivo e intelectual, mas não é o único aspecto do homem, nem mesmo o que mais influi sobre o mesmo. Decorre-se deste fato, que a possibilidade de construção de um sistema científico que não leve em conta a totalidade da realidade, é decorrência da própria fragmentação do homem moderno. Assim, a absolutização de um aspecto do real pelo sistema qualquer que seja, levará certamente a resultados parciais e inverídicos, pois isto feito, não cumpre-se o papel de verdadeira “ciência”, nem mesmo se alcança a VERDADE.
O homem contemporâneo corre o risco de perder-se em meio a pseudo-verdades, que revestidas de uma não menos pseudo-razão, contradizem-se levando a uma não percepção do que seja “verdade”. Basta pensarmos nas diversas correntes, sistemas e teorias, estas não raras vezes, anulam-se mutuamente. Não que a pesquisa e o “fazer” ciência, não gere anulações, estas até são necessárias para o progresso gnosiológico, no entanto, o que discutimos é a absolutização que muitos cientistas e pesquisadores fazem de determinados sistemas equívocos, que tornam-se pseudo-verdades, revestidas de uma aparência de verdade.
O próprio conceito de verdade foi abolido do discurso contemporâneo, nada é estável, sólido, permanente, tudo tornou-se efêmero, descartável, modismo, “passa-tempo”. Quando a religião prega a Verdade, seu discurso soa fundamentalista, não ecumênico, não respeitador da diversidade. Este discurso falacioso, apresentado como respeito ao pensamento, um outro ponto de vista, processo de alteridade, na verdade esconde sorrateiramente algo de muito perigoso, até mesmo destruidor, pois impede a busca do absoluto – tanto no sentido de algo verdadeiro, como de Absoluto com letra maiúscula referindo-se à Deus. Assim, podemos compreender o paganismo contemporâneo, se nada é absoluto, logo Deus está morto! Vimemos na “ditadura do relativismo”.
A verdade como meta do agir humano, no sentido mais filosófico e teleológico do termo, foi colocado em questão pela “pseudo-redenção” cientificista. Ao transpor para a ciência uma tarefa redentora, esta, passa a ocupar um lugar nunca antes pensado pelo homem da antiguidade e do medievo. Para estes, com suas nuâncias particulares, a tarefa da ciência era sim de alcançar a verdade, mas como participação na falibilidade de todo empreendimento humano. Portanto, pela ciência, enquanto criação do gênio humano participa de todas as grandezas e mediocridades do próprio mentor.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

INDICO PARA LEITURA


(FLORES, Juan Javier.Introdução à teologia litúrgica. Paulinas)

Indico a leitura desta obra de teologia litúrgica a todos os estudantes e amantes da ciência litúrgica. Visto que, rasamente temos boas traduções brasileiras, esta é uma excelente tradução.
Sobre o autor: Juan Javier Flores nasceu em 1951, é monge da abadia beneditina de Silos, Espanha, licenciado em Filosofia e doutor em Teologia. Atualmente preside o Pontifício Instituto Litúrgico "Santo Anselmo", de Roma. Autor de livros científicos (como sua tese de doutorado sobre As horas diurnas do Liber Horarum de Silos), publicou também outras obras de orientação mais pastoral, como Uma liturgia para o terceiro milênio. Colabora habitualmente em diversas revistas litúrgicas (Ecclesia Orans, Pastoral Litúrgica etc.). É membro do conselho da revista Phase.
A obra é qualificada de "introdução"é um curso de liturgia que segue o itinerário feito ao longo do século XX na compreensão teológica da liturgia, desde o papa Pio X até nossos dias. Estuda-se a liturgia como lugar em que se vive e pratica a teologia, expressão da fé, na plena participação do mistério de Jesus, cuja manifestação histórica central é a fé pascal dos que, triunfando da morte, são chamados à vida eterna.
Em lugar de encarar a liturgia na problemática específica das celebrações litúrgicas e dos sacramentos, ou como fonte de dados para a elaboração teológica, procura-se seguir a tradição mais antiga da Igreja, em que a liturgia era a expressão da vida do Espírito, comunicada pela participação na ressurreição de Jesus, manifestação de sua vida além da morte, que nos é a todos comunicada no Espírito.Tal mudança de perspectiva foi resultado do movimento litúrgico.
Dom Odo Casel foi o primeiro que sentiu necessidade de reformular o discurso teológico em continuidade com a liturgia, dando origem ao que denominamos teologia litúrgica, formulada pela primeira vez por Salvatore Marsili.A obra, depois de lançar um olhar sintético sobre a história, desde as origens cristãs, estuda minuciosamente os desenvolvimentos recentes, aponta para as conseqüências tanto acadêmicas como pastorais dessas novas abordagens e termina enunciando o que chama de sete leis fundamentais da teologia litúrgica.

Breve síntese de Hans urs von Balthasar



Hans Urs von Balthasar (Lucerna, Suíça; 12 de Agosto de 1905 - Basiléia, Suíça; 26 de Junho de 1988) foi um teólogo. Nas recentes comemorações do centenário do nascimento, o seu amigo Joseph Ratzinger (Bento XVI) afirmou que "a sua vida foi uma genuína busca da verdade", entendida como "busca da verdadeira vida". Von Balthasar procurou "quebrar aqueles circuitos que tantas vezes mantêm a razão prisioneira de si mesma, abrindo-a aos espaços do infinito", disse Bento XVI. E fê-lo estudando filosofia, literatura e as grandes religiões. Hans Urs von Balthasar não era doutorado em Teologia, mas sim em Literatura (tese defendida em 1928: "A questão escatológica na actual literatura alemã"). A busca do divino manifesta-se em todo o lado.
Há três gandes pontos de ligação entre este teólogo e o actual Papa, para além da amizade que os unia. Escreveram obras a meias (o Correio do Vouga referiu uma na edição de 8 de Junho deste ano, "Maria, Primeira Igreja", Ed. Gráfica de Coimbra), fundaram, com Henri de Lubac, a "Communio, Revista Internacional de Teologia", e une-os uma paixão comum por Mozart (as notícias das mudanças dos bens de Bento XVI, de um apartamento em Roma para o Vaticano, referiam um piano em que o então cardeal gostava de interpretar Mozart).
O teólogo que defendia uma "teologia ajoelhada", isto é, o pensamento teológico tem de estar ligado à oração e à adoração, em vez de ser mera análise sistemática, foi o grande ausente do Segundo Concílio do Vaticano, embora ideias como a da Igreja santa mas "sempre necessitada de purificação e de penitência" lhe sejam caras.
Ordenado padre em 1936, von Balthasar foi jesuíta até 1950. Nesse ano deixou a Sociedade de Jesus, como consequência de, no desempenho da sua missão, se ter tornado amigo e confessor de Adrienne von Speyr, uma viúva convertida ao catolicismo. As suas visões e escritos místicos, bem como a "Comunidade de São João" (para leigos, fundada pelos dois), não eram reconhecidos pela Igreja, pelo que o teólogo se desvinculou dos jesuítas, como "aplicação da obediência cristã a Deus".
Entre os mais de mil livros e artigos deste teólogo, destacam-se os sete volumes de "A Glória do Senhor" (teologia estética, baseada na contemplação do bem, do belo e da verdade), os cinco de "Teo-Drama" (sobre a acção divina e a resposta humana, especialmente nos acontecimentos pascais) e os três volumes de "Teo-Lógica" (cristologia e ontologia).
Diz-se que Hans Urs von Balthasar era o teólogo preferido de João Paulo II. E, de facto, não pelas suas preferências, mas pelo contributo dado à Teologia e à Igreja, o Papa Wojtyla nomeou-o cardeal. A recepção do título, apenas honorífico, visto não poder participar em um conclave, estava marcada para 28 de Junho de 1988. Hans Urs von Balthasar entra para a glória do Senhor dois dias antes, quando se preparava para celebrar Missa.