sábado, 21 de julho de 2012
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Liturgia das Horas: 'Laus perene'
LITURGIA DAS HORAS- "Laus perene"
Constituição Apstólica «Laudis canticum»
«O Cântico de louvor, que ressoa eternamente nas moradas celestiais, e que Jesus Cristo, sumo sacerdote, introduziu nesta terra de exílio, foi sempre continuado pela Igreja, ao longo de tantos séculos, constante e fielmente, na maravilhosa variedade das suas formas».
Dados históricos
- Liturgia das Horas desenvolveu-se, pouco a pouco, até se converter na oração da Igreja local
- sob a presidência do sacerdote, em tempos e lugares determinados, fazia dela como que um complemento necessário, para que todo o culto divino, centrado e contido no Sacrifício Eucarístico influenciasse e enriquecesse todas as horas da vida dos homens
- ao longo dos séculos o livro do Ofício Divino, converteu-se em instrumento apropriado para a oração sagrada
- o Concílio de Trento, por falta de tempo, não fez a reforma do Breviário
- o Breviario Romano de Pio V de 1568, preocupou-se com a uniformidade das horas canónicas
- foram introduzidas inovações pelos Pontífices Sisto V, Clemente VIII, Urbano VIII, Clemente XI e outros
- Pio X, em 1911, publicou o novo Breviário e estabeleceu o uso antigo de recitar, em uma semana, os cento e cinquenta salmos
- Pio X, fez uma nova disposição do saltério, suprimiu as repetições desnecessárias e adaptou o saltério ferial e o ciclo da liturgia bíblica com o Ofício dos santos
- Pio X, valorizou e deu importância ao Ofício dominical em relação às festas dos santos
- Pio XII, também reassumiu trabalho da reforma do Breviário
- Pio XII, concedeu uma nova versão do Saltério
- Pio XII, em 1947, mandou uma Comissão especial deestudar o problema do Breviário
- Pio XII, no Decreto de 23 de Março de 1955, fez a simplificação das rubricas
- João XXIII, em 1960, continuou a obra do seu predecessor e publicou o Código de Rubricas
João XXIII e Concílio Vaticano II, reforma litúrgica
- tratou da reforma litúrgica em geral e da oração das Horas em particular
- O Sinodo dos Bispos de 1967 aprovou os princípios e a estrutura da Liturgia da Horas
- sete anos de trabalho e preparação do livro da Liturgia das Horas
- com o contributo dos doutos e peritos em matéria litúrgica, teológica, espiritual e pastoral
Ordenação da Liturgia das Horas
- foram ditas em conta as condições em que se encontram os sacerdotes comprometidos no apostolado; o ofício divino como oração do povo de Deus, foi disposto e preparado para todos: clérigos, religiosos e leigos; o Ofício responde às exigências espefícicas de pessoas, de ordens e condições diversas.
- a Liturgia das Horas é a santificação de todo o dia. Por isso, a ordem da oração foi renovada, as horas canónicas foram adaptadas as diversas horas do dia; foi suprimida a Hora Prima; às Laudes e às Vésperas têm maior importância e são apresentadas como verdadeira oração da manhã e da tarde; Ofício de leituras foi conservado mas com a possibilidade de adaptá-lo a qualquer hora do dia; a Hora Intermédia foi disposta para escolher uma só, entre as Horas Tércia, Sexta e Noa
- a Liturgia das Horas é vista como verdadeira “fonte de piedade e alimento para a pessoal”; foram introduzidos diversos elementos para facilitar a meditação dos salmos, como os títulos, as antífonas, as orações sálmicas e os momentos de silêncio
- foi suprimido o ciclo semanal do saltério e distribuído em quatro semanas; foram omitidos salmos e alguns versículos de significado mais duro e difícil; às Laudes foram acrescentados outros cânticos do A. T. e nas Vésperas foram acrescentados cânticos do N. T.
- o tesouro da palavra de Deus é mais abundante com uma certa unidade temática em todo o ano acentuando-se os momentos culminantes da história da salvação
- as obras dos santos Padres e dos Escritores eclesiásticos, apresentam os melhores escritos de autores cristãs
- na Liturgia das Horas foi eliminado o que não corresponde a verdade histórica; as leituras hagiográficas foram revistas
- às Laudes ajuntaram-se as preces, para consagrar o dia e invocar a Deus para o começo da jornada laboral; nas Vésperas fazem-se orações de súplica; no fim das preces foi restabelecida a oração dominical, assim por dia permite que seja recitada três vezes: Missa, Laudes e Vésperas
Restauração da Oração da Igreja
- renovada e restruturada segundo a sua tradição antiquíssima
- reaviva o sentido da oração “sem interrupção” que Cristo ordenou à sua Igreja
- oração de toda a família humana, a que se associa a Cristo
- oração da Igreja é “oração que Cristo, unido ao seu Corpo, eleva ao Pai”
- a oração dos salmos, que acompanha e proclama a acção de Deus na história da salvação, deve ser compreendida com renovado afecto de todo o povo de Deus
Obrigação da Liturgia das Horas
- as orações das Horas são propostas a todos os fiéis
- aqueles que receberam da Igreja o mandato de celebrar a Liturgia das Horas, têm de cumprir todos os dias, no tempo verdadeiro de cada uma das horas, dando importância às Laudes e Vésperas
- aqueles que receberam a ordem sagrada esão sinal de Cristo sacerdote
- aqueles que, pela profissão religiosa, foram consagrados ao serviço de Deus e da Igreja de forma especial
Mandato Apostólico
- estabelecemos, aprovamos e promulgamos, ressoe cada vez mais esplêndido e formoso o louvor divino dos nossos tempos
- determinamos que este novo livro da Liturgia das Horas possa ser usado após a sua publicação
8. 1. Antecedentes bíblicos
8. 2. A Oração ritual judaica no tempo de Jesus
8. 3. A experiência e o ensinamento de Jesus
8. 4. A Oração da comunidade
O Ano Litúrgico nos primeiros quatro séculos
O ANO LITURGICO NOS PRIMEIROS QUATRO SÉCULOS
a) A celebração anual da Páscoa
Alguns autores admitem que se pode presumir que a Igreja apostólica conhecia a celebração anual da Páscoa. É uma hipótese porque testemunhos directos em favor de uma celebração ‘ritual’ não existem, ou pelo menos não são evidentes. R. Fuller, um biblista dos Estados Unidos de America, defende que a primeira versão de narrações da paixão e da ressurreição de Jesus tem a sua orgim ‘sitz in leben’ na liturgia comunitária. Se admitimos esta hipótese, o problema é também saber se se trata de liturgia da Páscoa semanal (domingo) ou anual.
Os Atos dos apóstolos apresentam dois textos que falam da páscoa – talvez judaica; o primeiro texto narra a captura e as conseguente libertação de Pedro, isto realiza-se em dois tempos: a) são dias dos azimos quando Pedro é capturado e Herodes espera o fim da páscoa hebraica antes de trazer Pedro diante do povo; enquanto que no segundo se trata das viagens de Paulo.
Ora, Pedro é arrastado como Jesus dias antes da páscoa ou festas dos ázimos (Lc 22, 1); Pedro é libertado da morte (iminente) como Jesus da morte (consumada); Pedro dorme e é acordado pelos anjos; duas expressões ‘dormir e acordar’ usados para indicar a morte e ressurreição; Pedro é libertado e logo vai dar a notícia aos discípulos.
É significativo que os Sinopticos descrevem a última Ceia como um banquete pascal: Jesus manda os seus discipulos a preparar uma sala para a pascoa (Mc 14,14; Mt 26,18; Lc 22,8). São Paulo à luz da cronologia de joanina, interpreta a morte de Cristo como o verdadeiro sacrificio pascal (1Cor 5,7); ele declara o superamento da festa hebraica da pascoa, porque a nova e verdadeira pascoa è Cristo imolado e ressuscitado “Cristo, nossa pascoa, foi imolado”. Quando se fala de Páscoa refere em geral da Páscoa judaica, mas aqui pela primeira e unica vez o N. T. fala da pascoa crista. Esta unica vez è suficiente para testemunhar que na comunidade crista, vinte anos depois da morte de Jesus, existe uma pacifica e radicada consciencia de possuir a propria pascoa.
b) A Data da celebração
São duas tradições históricas da celebração anual da Páscoa, uma da Ásia Menor e outra de Roma. Os primeiros testemunhos da celebração anual da Páscoa cristã são de meados do II século e procedem da Ásia Menor.
As igrejas da Ásia celebravam a Páscoa 14 de Nisan. Estas igrejas convencidas de que a morte de Cristo tinha substituído a páscoa judaica celebravam a Páscoa jejuando 14 de Nisan e terminavam com a celebração eucarística que tinha lugar no fim da vigilia nortuna entre 14 e 15 de Nisan.
As igrejas unidas à Roma, celebravam a Páscoa no Domingo depois de 14 de Nisan. Na primeira metade do século IV, Eusébio de Cesarea, na sua História eclesistica (5, 23-25) nos fala sobre uma controvérsia do fim do II século a respeito de textos da Páscoa antiga. Cerca do ano 190 acendeu-se a controvérsia de modo o Papa Victor (193-203) ameaçou a excomunhão as comunidades cristãos ‘quatrodecimanos’. Eusébio narra da intervenção pacificadora de vários bispos e, em particular, de Santo Ireneu de Leão, discípulo de São Policarpo de Esmirna. O Papa não deu a excomunhão pelo diálogo de paz e respeito aos cristãos.
Outros autores argumentam que antes do Papa Sotero (166-175) a Páscoa anual não era celebrada na Igreja Romana. No documento história eclesiástica, Ireneu fala daques que ‘observam’, certamente daqueles que observam a Páscoa à sua data tradicional; mas aqueles que não ‘observam’, não observam na data tradicional nem em nenhum outro momento. Isto demonstra que em Roma o ciclo litúrgico semanal era a tentativa de formação litúrgica do calendário e que não era uma festa anual que distinguia um Domingo ao outro Domingo até finais de 166. O dilema não era em relação à morte ou ressurreição de Cristo, mas era se a Páscoa devia ser celebrada no dia da morte ou dia da ressurreição de Cristo. A Páscoa anual celebrada ao Domingo representa um adaptamento da Páscoa semanal introduzida independemente.
Observe-se que ao longo do III século se impõe a data dominical da Páscoa. Por isso, o Decreto de Niceia (325), não fala dos quartodecimanos, mas da diversidade de princípios no calendário da Páscoa nas diversas igrejas. A Igreja ainda hoje celebra a Páscoa no Domingo a seguir o plenilúnio depois do hequinócio da primavera entre 22 de Março a 25 de abril. As divergências existentes até agora sobre a data da Páscoa entre os cristãos se devem a diversas causas, em particular ao facto de que o Patrirca Jeremias de Constatinopla não aceitou a reforma do calendário de Gregório VIII no ano 1582, neste ano se passou do antigo calendário Juliano ao Gregoriano, de modo 4 de Outubro de 1582 tornou-se 15 de outubro de 1982.
c) A estrutura celebrativa
Os mais antigos documentos dos séculos II-III oferecem poucos dados sobre a estruturas celebrativa da Páscoa além da vigília pascal. A Páscoa apresenta-se com um jejum rigoroso, que dura diferentemente entre as igrejas (um ou mais dias), seguida de uma assembleia nocturna de orações e leituras, terminada com a celebração eucarística. No início do III século encontramos indicações de celebração do baptismo na noite da Páscoa. Um quadro ilustrativo das celebraçoes pascais, so vimos a encontrar na Siria no documento Didascalia Apostolorum do século III, e em Jerusalém no Itinerarium Egeriae do fim do IV século.
Quanto ao jejum pascal, a Mishinah (ensinamento) prescrevia o jejum de cada tipo de comida desde a oferta do sacrificio da noite até ao sacrificio do cordeiro pascal. Este jejum foi determinante para o jejum pascal do cristianismo. Pode ser que a norma prática dos quatrodecimanos tivesse o costume de jejuar todo o dia 14 de Nisan até ao canto do galo de 15 de Nisan.
Em Roma, no século III, o jejum pascal era provalvemente de dois dias antes da Páscoa, mas no capítulo 23 da Tradição Apostólica indica que oo doentes observem um dia de jejum, o sábado. Em Jerusalém, no século IV, segundo o capítulo 27 do Itinerarium Egeriae o grande dia do jejum é o Sábado Santo, único sábado do ano em que se jejua. Diga-se que fins do II século, a Páscoa é uma festa que prossegue em cinquenta dias. De facto, Pentecoste é para os antigos cristãos o inteiro período de cinquenta dias com uma certa acentuação do cinquentésimo dia para o carácter conclusivo do inteiro período. Tertuliano, no (De Baptismo, 19,2) fala como “um só dia de festa “ que “goza da mesma solenidade e leticia” que caracterizam o dia da Páscoa. (De Oratione, 23, 2). De novo, os mais antigos testemunhos da Páscoa vem da Ásia Menor: a Epístola dos Apóstolos, um apócrifo escrito em 150; a homilia de Mileto de Sardi, sobre a Páscoa, um texto poético e académico, escrito 165; homilia sobre a santa Páscoa de um anónimo do II século e outros textos antigos do III e IV séculos.
A Epístola dos Apóstolos, no capítulo 15, refere-se dos Actos dos Apóstolos 12, quando diz:
Depois do meu regresso ao Pai, fazei memoria da minha morte. Quando terá lugar a pascoa, então, a causa do meu nome, um de vós entrará na prisão e estará na tristeza e ânsia, porque vós festejareis a Páscoa, enquanto ele se encontra na prisão e longe de vós; ele chorará porque não celebra a Páscoa convosco. Então eu mandarei o meu poder na figura do anjo Gabriel e as portas da prisão se abrirão. Ele sairá e virá a vás e fará convosco uma noite de vigília, permanecendo convosco até ao canto do galo. Contudo quando tereis feito memoria que se faz de mim e o agapé, ele será de novo deitar na prisão no testemunho, para que sairá dali e anunciará aquilo que vos transmiti. Nós lhe dissemos: Senhor,, é de novo necessário que nós tomemos bebamos o cálice? Ele disse: Sim. É necessário até ao dia em que eu estarei con aqueles que foram mortos por minha causa.
Aqui também a Páscoa é a celebração da morte de Cristo (até ao canto do galo) que culmina com a celebração eucarística.
Na Siria, na primeira metade do III século, a Didascalia (5,19) apresenta uma descrição mais detalhada da vigília pascal. Depois de descrever o jejum completo, sexta-feira e sábado, em sinal de luto pela paixão e morte do Senhor, diz:
… para toda a noite, juntos permanecei reunido, ficai em vigília suplicando e rezando, lendo os profetas, o evangelho e os salmos, com temor e tremor e com assidua súplica até a hora terceira da noite, isto é, ao canto do galo, passado o sábado e então livrai o vosso jejum; portanto oferecei os vossos sacrificios e então comei e alegrai-vos, porque Cristo ressuscitado é o penhor da nossa ressurreição.
Na primeira parte do III século, Tertuliano num contexto não bem claro da obra De baptismo (19,1) e Hipólito no comentário In Danielem (1,16), apresentam a Páscoa como o dia apropriado para o baptismo e assim também é interpretada a vigília baptismal e descrita na Tradição Apostólica (21). Esta práxis torna-se comum no decurso do IV século.
d) O fundamento teológica da Páscoa
São vários os testemunhos de catequese pascal da igreja antiga. As homilias pascais do II século mostram que a Páscoa é em vista a celebração da morte redentora de Cristo um aspecto teológico cuja característica principal é a globalidade, enquanto o mistério pascal de Cristo é considerado momento culminante que recolhe em si os grandes momentos da história salvífica.
O argumento central da homilia sobre a Páscoa é a Paixão de Cristo, que é considerado sob diversas prospectivas: Mileto mete em relevo o valor salvifico da Páscoa; ele demonstra que a obra divina da salvação é vantagem da humanidade pecadora; por fim, explica que o povo de Israel, o qual foi confiado o rito prefigurante a Páscoa cristã, foi castigado por Deus por causa da sua ingratidão e o antigo simbolismo não serve, porque a verdadeira Páscoa foi realizada perfeitamente por Jesus Cristo, vitorioso sobre o pecado e a morte. O conteúdo da celebração pascal é a morte vitoriosa de Cristo.
Quem é o meu contraditor? Sou eu – disse – Cristo. Sou eu que destrui a morte, que venci o inimigo, que calquei o Ade, que amarrei o forte, que raptei o homem para os céus. Sou eu – disse – Cristo. Portanto, vinde, vós todos geração humana, vós mergulhados no pecado. Recebei a remissão dos pecados. Sou eu, de facto, a vossa remissão; sou eu a Páscoa de salvação; eu o Cordeiro imolado para vós (102-103).
A homilia sobre a Santa Páscoa de um anónimo tem um semelhante conteúdo teológico. O texto aprece com um hino de Cristo Luz-vida; fala da Páscoa judaica e da Páscoa cristã. Por fim, exalta Cristo; e a Páscoa apresenta como a festa de todo o mundo que Cristo pagou com o seu sangue.
Nestes textos homiléticos se realiza uma dilatação da ideia pascal ligada à imolação do cordeiro (1Cor 5,7), de maneira que a expressão ‘mistério da pascoa’ que aparece pela primeira vez nestes autores, alia-se ao inteiro plano salvífico de Deus e coincide com o ‘mistério de Cristo do qual Paulo fala (Col 4,3; Ef 3,4). A celebração pascal comemora todo o mistério de Cristo culminante no evento salvifico da cruz.
As ideias teológicas fundamentais da celebração da Páscoa são: Páscoa-paixão, Páscoa-passagem; comemoração da Paixão vitoriosa de Cristo; da Páscoa-recapitalação; Páscoa-parusia (escatologia).
a) da “Páscoa - paixão” à “Páscoa - passagem” – na tradição da Ásia Menor (II-III séculos) e de Alexandria (III século) o conteúdo central da Páscoa é a paixão e a morte do Senhor. A concepção da Páscoa como paixão é fundada na etimologia popular que colocava em relação a palavra pascha com o grego paschein, pathos, e com o latim pati, passio.
Para esta tradição, a Páscoa é a celebração total da nossa redenção, comemoração da paixão vitoriosa de Cristo. Os textos falam da obra da salvação, mas metem o acento sobre a paixão de Cristo. A celebração tem como tipologia a imolação do cordeiro pascal (1 Cor 5, 7). A ressurreição é vista como uma espécie de corolário natural da morte vitoriosa. O rito central da páscoa é a eucaristia que anuncia “a morte do Senhor até que ele venha” (1 Cor 11, 26). Aqui constata-se que a teologia da páscoa antiga é muito mais ampla do que se pode vir a “páscoa semanal”. A páscoa é a festa anual da redenção de Cristo, enquanto que o domingo nasce com o tema da ressurreição de Cristo.
Mas no início do III século, Clemente de Alexandria e Origines, embora falem da páscoa como comemoração da paixão, afirmam que a expressão não vem de paschein mas do ebraico phas, isto é passagem (em grego, diabasis). «Porque nesta festa o povo saiu do Egipto, justamente essa é chamada phas, isto é, passagem» (Origenes, Fragmento da Obra sobre a Páscoa, n 37). Origenes também espiritualiza e universaliza a páscoa, tal que, para ele, a igreja e cada fiel celebra incessantemente nos sacramentos (no baptismo e na eucaristia), (Contra Celso, 8, 22). Clemente de Alexandria apoia-se sobre as consequências morais: a páscoa «é a passagem de cada paixão e de cada coisa sensível (Stremati, 2, 22, 51, 2).
São Jerónimo, como antes tinha falado Origenes e outros escritores da antiguidade, fala da páscoa como passagem (transitus), mas coloca em realce o facto que, segundo o Êxodo, esta passagem é aquela do Senhor. Santo Agostinho aceita esta correcção de sentido e faz uma síntese, unindo a concepção da páscoa – paixão e páscoa passagem:
... «através da paixão, o Senhor passou da morte à vida, abrindo a vida a nós que acreditamos na sua ressurreição, para passar também da morte à vida» (Exposição sobre o salmo 120, 6). Para Santo Agostinho a páscoa se realiza na eucaristia quotidiana. Mas isto não compromete o significado especial da solenidade anual da páscoa, que tem a sua eficácia peculiar:
não devemos, de facto, considerar estes dias (Páscoa) assim fora do ordinário para esquecer a memória da Paixão e da Ressurreição que fazemos quando nos alimentamos cada dia do seu corpo e do seu sangue. Contudo, a presente solenidade tem o poder de reinvocar à mente com mais clareza, para suscitar maior fervor e de alegrar mais intensamente o facto que, voltando a distância de um ano, nos representa visivelmente a lembrança do evento (Sermão Wilmart, 9,2).
Pelo contrário, Santo Ambrósio, considera que o sacramento pascal por excelência ainda mais que a eucaristia é o baptismo: passagem do pecado à vida, da culpa a graça, da mancha à santidade (De sacramentis, 1, 4, 12). Estas evoluções tendem orientar-se para o momento tipológico mais importante da imolação do cordeiro (Ex 12) à passagem do mar vermelho (Ex 13-14). Por isso, o baptismo é visto como o rito do sacramento próprio da páscoa.
b) a Páscoa – recapitulação – na páscoa litúrgica de Isreal a memória do Êxodo se tinha estendido até à criação: a primeira noite em que JHWH se manifestou ao mundo para criar. Análogo processo se verifica para a páscoa da Igreja. A concepção de páscoa como recapitulação, retoma uma ideia de São Paulo na Carta aos Efésios, ali onde fala do desígnio de Deus de «recapitular em Cristo todas as coisas, aquelas como céu como aquelas da terra» (Ef. 1, 10). A ideia é começar desde o início e levantar ou erguer. Toda a Epístola desenvolve a ideia de Cristo que regenera e une debaixo da sua autoridade, para reconduzira Deus, o mundo criado, que o pecado tinha corrompido e dividido: o mundo dos homens, em que judeus e pagãos são reunidos numa única salvação, e também o mundo dos anjos.
O conceito de recapitulação procura mostrar a unidade do desígnio salvífico de Deus, criação e redenção numa única economia divina. É tema frequente nas catequeses pascais dos padres, e coloca em realce o mistério da ressurreição. Gaudêncio de Brescia (410 diz: o Filho de Deus, por meio do qual todas as coisas foram feitas, eleva com a própria ressurreição o mundo prostrado no mesmo dia e na mesma estação em que ele mesmo no princípio o criou de nada. Assim tudo é ressuscitado em Cristo» (Tratado sobre o Êxodo, 1, 3). São Paulo fala do baptismo como uma nova criação (2 Cor 5, 17); Gal 6, 15).
c) a Páscoa – parusia (escatologia) – a espera escatológica constituía um elemento importante na páscoa judaica no tempo de Jesus, até o consolidar-se de uma tradição que ligava cronologcamente a aparição do Messias prometido na festa da páscoa.
terça-feira, 10 de julho de 2012
A caixa aberta: aproximação ao Concílio Vaticano II
A caixa
aberta: aproximação ao Concílio Vaticano II
Q uando se
trata de abordar um concílio do ponto de vista histórico, deve-se, antes do
mais, ter em mente que ele é simultaneamente um ponto de chegada e um ponto de
partida: recolhe a experiência eclesial de um certo período e, à sua luz,
confirma ou redireciona a vivência cristã – não modificando aquilo que é o
núcleo precioso e inegociável da fé que guarda e prega, fé que recebeu dos
santos apóstolos, mas fazendo-a inteligível e pertinente aos tempos que se
põem. Foi assim em toda a milenar história do movimento cristão, de Nicéia ao
Vaticano II. Um concílio deve, portanto, ser entendido não apenas em função dos
movimentos intestinos da estrutura eclesial em um dado momento, mas também em relação
com o que acontecia extra muros quando de sua convocação, realização e
aplicação.


Comecemos
pelas mudanças de cúpula, literalmente. Com o Concílio Vaticano II, o
centralismo romano, bem estabelecido fazia séculos, teve de ceder diante dos
episcopados – o que, aliás, está plenamente de acordo com as mais antigas
tradições da Igreja. Citarei um único exemplo, mas um exemplo muito
significativo. Depois do período das Cruzadas algumas Igrejas Cristãs Orientais
entraram em plena comunhão com a Igreja Católica por várias razões.
Menosprezadas por seus homólogos (e vizinhos) Ortodoxos como uniatas,
elas também tiveram de enfrentar a ignorância e a desconfiança da parte da
Cúria Romana, além de tentativas eventuais de romanização por parte de prelados
de origem ocidental, normalmente apoiados por autoridades coloniais. Durante as
sessões do Vaticano II o Patriarca Greco-Melquita Máximo IV Sayegh defendeu
estas tradições orientais em alto tom, lembrando que catolicismo e latinismo
não são sinônimos; recusou-se mesmo a falar em latim, alegando que não havia
sentido nisto, pois as línguas litúrgica e pastoral de seu uso corrente eram o
grego e o árabe. O Concílio reconheceu os cristãos orientais em comunhão com
Roma não apenas como ritos, variações eclesiais exóticas que supostamente
existiam apenas por liberalidade do Bispo de Roma, mas como igrejas
verdadeiras, plenas, com uma teologia, uma espiritualidade, um governo
eclesiástico e um direito canônico próprios.
Para saber mais:
Entrevista
com Alfredo Bronzato
Alfredo
Bronzato é bacharel e licenciado em História pela Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e mestrando no Programa de Pós-Graduação
em História da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Entre
os dias 29 de maio e 1º de junho passado, participou do XIII Simpósio Nacional
da Associação Brasileira de História das Religiões, realizado na Universidade
Federal do Maranhão (UFMA); e no dia 28 de julho corrente irá ministrar a
palestra “Panorama Histórico do Concílio de Trento” por ocasião do II Seminário
de Liturgia do Vicariato Episcopal Oeste, cujo mote é “Celebrando os 50 anos do
Concílio Ecumênico Vaticano II”.
Prof.
Alfredo, como você avalia do ponto de vista histórico o Concílio Vaticano II?
Para usar
uma frase de impacto, o Vaticano II foi uma resposta positiva do catolicismo à
modernidade. Quando uso este adjetivo para qualificar a relação entre o catolicismo
e a modernidade não quero atribuir a ele um valor moral, afirmando que o
Vaticano II foi uma resposta boa ao mundo moderno, mas quero recuperar um outro
significado do termo positivo: o Concílio Vaticano II foi uma resposta
construtiva, baseada em fatos dados, a um mundo que havia experimentado talvez
mais mudanças nos últimos cento e cinquenta anos do que nos quinhentos ou mil
anos precedentes. Deste ponto de vista, o Concílio Vaticano II foi inverso ao
Concílio Vaticano I, que, em linhas gerais, recusou-se ao diálogo com a
modernidade e foi marcado por tendências centrípetas, por uma tentativa de
fechar a Igreja – e Igreja compreendida quase que só em termos de hierarquia
sacerdotal – em torno de si mesma. Por outro lado, sob este mesmo prisma, pode-se
interpetar o Vaticano II como uma continuação possível do Concílio de Trento,
que trouxe para a vida da Igreja como elementos constitutivos fenômenos que são
tipicamente modernos, como a valorização geral da disciplina e do imperativo
missionário, não mais restritos a círculos monásticos, de pessoas tidas como
especiais, como essencialmente distintas das outras.
Creio que a
grande questão do Concílio Vaticano II – e que ainda deve ser a nossa – é como
se pode ser católico não apenas depois que certa filosofia proclamou a morte de
Deus, mas como se pode ser cristão depois que as atrocidades do imperialismo,
as duas grandes guerras, os campos de concentração, as bombas atômicas e certos
arranjos econômicos internacionais que condenam milhares à vergonha e à fome,
proclamaram a morte do homem. Reafirmar com ainda mais veemência que a Igreja
era uma sociedade perfeita, que não precisava do mundo para nada, insistir
apenas nos aspectos mais individualistas da fé cristã, nas devoções, em certa
escatologia, seria pecar por omissão, e, portanto, trair a missão que têm os
cristãos de ser sal da terra e luz do mundo.
A velha
instituição havia aparentemente resistido bem ao choque da Segunda Grande
Guerra Mundial: os seminários eram numerosos, ainda que fosse preocupante a
queda das vocações; os bispos continuavam em seus lugares, informados e
eficientes; a frequência aos sacramentos declinava tão lentamente que se
imaginava ser esta uma tendência passageira... Sustentava-se, portanto, o mesmo
tipo de ilusão de vitalidade que os encantados tradicionalistas de hoje
sustentam quando apontam um certo tradicionalismo das igrejas locais da África
e da Ásia como contraponto ao desânimo dos católicos de paragens que nos
últimos séculos foram marcadas por uma grande presença institucional da Igreja;
como se elas não fossem passar pelos mesmos problemas que o Velho Mundo
católico passou e passa. Como eu escrevi, a Igreja de modelo tridentino havia
resistido bem apenas aparentemente. Houve resistências heróicas ao
totalitarismo nazista, gestos corajosos que não podem ser esquecidos, mas
muitos eram os que, com certa razão, questionaram publicamente a atitude de
certos membros do episcopado diante da Ocupação hitlerista. Na França, por
exemplo, apenas seis bispos opuseram-se publicamente à legislação contra os
judeus e à política de colaboração com a Alemanha de Hitler – colaboração na
qual se enganjaram, aliás, importantes setores da tradicional direita católica
francesa. O cardeal-arcebispo de Paris, por outro lado, foi proibido por
Charles de Gaulle de participar da cerimônia comemorativa da vitória, realizada
na Catedral de Notre-Dame, por ter dado apoio público ao governo do Marechal
Pétain...
Houve uma
tendência a esquecer esta fissura entre conformismo e resistência (que também
se verificou nas relações entre a Igreja Católica e as ditaduras
civil-militares latino-americanas), mas um difuso mal-estar se elevou dela. O
mesmo cardeal-arcebispo de Paris foi um dos que reconheceu que havia qualquer
coisa de novo que deveria ser levado em consideração pela Igreja: no seu livro Avanço
ou declínio da Igreja ele constatou a crise das vocações, o avanço rápido
da indiferença religiosa e o surgimento de uma cultura operária cuja gramática
as autoridades católicas desconheciam. Muitos padres e bispos reconheceram as
regiões sob seus cuidados nesta análise, e este pequeno volume foi traduzido
quase que imediatamente para as principais línguas do planeta. Na França
criou-se uma importante Missão Interior: destacaram-se padres das paróquias para
que mergulhassem inteiramente no mundo operário, vivendo como leigos, morando
nas periferias, trabalhando nas fábricas, tendo como único objetivo serem
reconhecidos pelo que eram por seus companheiros de trabalho, dando testemunho
desta forma da Mensagem do qual se faziam portadores. Muitas outras iniciativas
semelhantes foram experimentadas mundo afora, principalmente na Itália, na
Inglaterra e na América Latina. Tratou-se de uma experiência límitrofe, que
acabou gerando abusos. Roma logo se conscientizou dos riscos teológicos e
políticos envolvidos e fez com que se interrompesse o empreendimento dos
padres-operários em 1954; quase dois terços dos cĺérigos nele envolvidos pedem
após seu término sua volta ao estado leigo. Encontraremos um esquema análogo na
época do Papa João Paulo II, quando se colocou com maior força o problema das
teologias ditas da libertação, mas o que quero destacar é que os franceses, com
alguma falta de tato, assinalaram que havia uma questão urgente e ainda sem
solução: a da relação entre a Igreja enquanto instituição e o novo mundo que
surgia diante de seus olhos e longe de seu abraço.
É nesse
momento de crise – e, como nos ensina Teilhard de Chardin, a crise não é
necessariamente uma ruptura, mas uma situação que nos obriga a (re) pensar –
que encontramos o homem certo no lugar certo.
Quando
Angelo Roncalli sucedeu o Papa Pio XII – que foi uma figura cada vez mais
isolada, que com a idade foi se aferrando mais e mais à compreensão de que a
Igreja deveria permanecer exatamente onde estava – pensava-se que ele seria um
moderado e aceitável Papa de transição. O gorducho e bonachão Patriarca de
Veneza – que não era um teólogo ou um burocrata, mas historiador (estudioso da
vida de Carlos Borromeu), diplomata e pastor – entretanto, não temia a mudança
e recusava vivamente a visão daqueles que viam apenas ruína e calamidade ao seu
redor. Erguendo a bandeira da esperança contra o – até certo ponto muito
justificado – pessimismo de alguns líderes eclesiásticos, o Papa João XXIII
valorizava a sensibilidade democrática e a liberdade de consciência que são
características do mundo contemporâneo, e acreditava na capacidade do ser
humano mudar o mundo para melhor. Sabia também que, às vezes, é necessário se
mudar muito para se permanecer o mesmo, e que se a Igreja Católica quisesse ser
fiel à sua missão era necessário participar das alegrias e angústias dos homens
e mulheres dos novos tempos, sendo, entre eles, sinal de esperança e fermento
de transformação. Contra forte e persistente oposição por parte da Cúria
Romana, convocou um concílio geral para reavaliar o papel da Igreja no mundo,
rompendo com a visão triunfalista (e míope) que, reelaborando o argumento
agostiniano, tanto havia marcado o catolicismo no século anterior com a
afirmação de que a humanidade se separava em dois mundos: a Cidade de Deus,
encastelada no Vaticano, e a Cidade de Satanás, o assim chamado “mundo
moderno”, com seus apóstatas, hereges e cismáticos.
Diversos
setores eclesiais reagiram com ceticismo com relação à possibilidade e à
necessidade de um novo concílio ecumênico; perguntavam-se: por que convocar um
se o Papa havia sido nomeado infalível menos de cem anos antes? Da mesma forma
reagiram os governos seculares e outros setores sociais. Antes da realização do
Concílio adiantou-se a Cúria na preparação dos documentos, muitos dos quais
foram rejeitados ou inteiramente reformulados nas sessões conciliares pelo
episcopado reunido. Os bispos do mundo inteiro foram consultados acerca de
quais assuntos deveriam ser abordados nesta imprevista reunião, e, se grande
parte deles se calou (não se sabia, afinal, se era o caso de algum teste de
ortodoxia e fidelidade), houve posicionamentos interessantíssimos – como, por
exemplo, o de D. Afonso Ungarelli, MSC, responsável pela Prelazia de Pinheiro,
no norte do Maranhão. D. Ungarelli, que era químico formado, um homem prático,
percebeu com acuidade a importância do momento histórico que vivia e fez
recomendações a Roma sobre a necessidade de se traduzir o breviário e os ritos
dos sacramentos para que a Igreja se fizesse entender mesmo entre os caboclos
maranhenses...
Quando, em
11 de outubro de 1962, os 2.500 padres conciliares entraram em procissão no
Vaticano o espetáculo foi impressionante para os observadores externos e
internos: nunca se havia assistido semelhante reunião, a uma assembléia de
mitrados de tão diversas cores e idiomas. Não se tratou de um concílio europeu,
como boa parte dos concílios do segundo milênio do cristianismo, mas de um
concílio ecumênico no sentido forte e primeiro da expressão, como os grandes
concílios da Antiguidade Tardia. 33% dos participantes provinham da Europa
Ocidental, incluídos aí os membros da Cúria Romana; 13% eram oriundos dos
Estados Unidos e do Canadá; 22% da América Latina; 10% da Ásia; 10% da África
Negra; 3,5% do mundo árabe; 2,5% da Oceania. Por razões políticas, as
lideranças católicas cujos rebanhos estavam em países comunistas foram
subrepresentadas: apenas 14 dos 27 bispos iuguslavos; 20 dos 65 poloneses; 4
dos 8 alemães orientais; 2 dos 16 húngaros; 3 dos 15 tchecos; e nenhum bispo
russo, romeno, chinês ou norte-vietimanita. Diante deste grupo heterogêneo,
João XXIII manifestou-se de maneira claríssima: afastou-se dos profetas da
desventura, fez o elogio da misericórdia contra a pregação da severidade,
eximiu-se de proferir condenações e anátemas, expressou seu desejo pela unidade
ecumênica, com os fiéis não-cristãos e com todo o gênero humano, pediu que o
Concílio não fosse uma reunião intestina, mas que correspondesse às
necessidades dos diversos povos.
Pode-se
fazê-lo remontar a antes disto, mas, de uma forma geral, este é o começo da
história do Concílio Vaticano II...
O
Concilio Vaticano II promoveu muitas mudanças na Igreja e, com elas, novos
desafios surgiram. Quais mudanças e desafios o senhor destacaria?
Mais ainda:
com o Vaticano II, o catolicismo enquanto instituição propôs-se a descer de sua
cidadela e dialogar em pé de igualdade não apenas com os filhos diversos – como
os católicos orientais – suas irmãs mais próximas – a Ortodoxia Grega e as
confissões chamadas pré-calcedonianas – e irmãos mais velhos – os judeus – mas
também com todos aqueles que poderiam ser considerados, poucos anos antes da
convocação do Concílio, seus inimigos naturais – muçulmanos, protestantes,
humanistas seculares, comunistas. Com o Concílio Vaticano a Igreja Católica de
fato experimentou uma mudança significativa em seu perfil histórico, animada
pelo duplo e convergente movimento da refontização (voltar às fontes dos
primeiros dias do cristianismo) e do aggiornamento (“atualização”, ou
seja, ler as fontes da fé à luz do tempo presente).
Quando se
fala com raiva ou com saudosismo da Igreja Católica como a Igreja das cruzadas,
das inquisições, da missionação violenta, da destruição das culturas
não-européias, da rejeição ao pensamento científico, da pregação monomaníaca do
inferno e da demonização do corpo, não se está falando – ou não se deveria
estar falando – da Igreja Católica pós-Vaticano II, que define sua missão como
a de transmitir a fé aos novos tempos ajudando a construir nestes o Reino de
Deus. Trata-se de uma orientação que não é acessória para quem nas últimas
décadas e hoje quer se chamar de católico. À luz desta consideração,
desqualificar o Vaticano II como sendo apenas um concílio pastoral,
tratando-o como se fosse uma espécie de concílio optativo, é prova de
desconhecimento e má-fé: toda mudança pastoral pressupõe e causa uma mudança
teológica e um dado contexto histórico; todo novo contexto histórico causará
mudanças teológicas e pastorais; toda mudança teológica pressupõe e causa uma
mudança pastoral em um dado contexto histórico; e mudanças deste tipo pontuam a
história da Igreja e dão-lhe vitalidade. De fato, de um ponto de vista
agnóstico (que deve ser a saudável perspectiva da historiografia acadêmica), ou
seja, que não considere a Revelação cristã e, fiada nesta, creia que há a ação
do Espírito Santo sobre a Igreja, é esta capacidade adaptativa do catolicismo –
manifesta no Concílio Vaticano II – o que constitui a sua pertinência a tantas
pessoas e coletividades por um período tão longo. Não se trata de coisa banal,
a ser ignorada.
Por outro
lado, eu não saberia responder se a Igreja Católica, hoje, realmente mudou no
sentido que o Papa João XXIII desejava que ela mudasse quando convocou o
Concílio Vaticano II. Os debates conciliares, a morte e sucessão de João XXIII,
a busca pelos consensos necessários: tudo isto fez modificar o seu rumo
original, como sempre acontece em eventos deste tipo, eventos em que há debate
e em que se manifesta a divergência. Há ainda de se considerar as dificuldades
de aplicação e a penetração variável em diferentes contextos eclesiais das decisões
desta Assembléia, as posições refratárias em escalas diversas, as distorções
das propostas conciliares, as recusas, as novas mudanças históricas. Além
disso, o Concílio levantou muitas expectativas, mas deixou de lado muitos
problemas que ainda esperam por solução. Qual deve ser a atitude diante dos que
não estão dispostos a dialogar? Qual deve ser o nível de participação da Igreja
enquanto instituição no processo político democrático? Qual o papel da
liberdade de consciência e de expressão diante do posicionamento oficial ou
oficioso da hierarquia eclesiástica em questões que não são de fé?
Evidentemente, isso não desqualifica o Vaticano II, mas, ao contrário, ressalta
a responsabilidade que os católicos têm hoje em relação ao patrimônio religioso
que herdaram daqueles que os precederam na fé. A fé cristã, de alicerces bem
estabelecidos, não é algo fechado, mas algo que se tece na prática e reflexão
cotidianas dos tempos mutáveis. O passado é um cemitério de verdades abandondas
(algumas justamente) e devemos hoje lidar com questões que não haveria como
serem postas ou respondidas pelos santos apóstolos ou por nenhum dos concílios
do passado – pessoas e eventos que devem lembrar-nos de nossas
responsabilidades enquanto católicos para com a formação do rosto da Igreja em
nossos dias.
Para
encerrar, gostaria de citar um trecho do livro Tu és Pedro (Rio de
Janeiro: Ed. Objetiva, 2001), interessante e acessível obra de síntese de
história da Igreja, cujo autor, Georges Suffert, recentemente falecido, foi um
personagem notável: jornalista e escritor francês, participou da Juventude
Estudantil Católica e comprometeu-se publicamente com a denúncia das
atrocidades cometidas pelos militares franceses quando das guerras de
independência do Marrocos e da Argélia. Escrevendo a respeito do contexto
histórico do Concílio Vaticano, Suffert lucidamente destacou que: “(...) Talvez
tenhamos entrado, com a eleição de João XXIII, em um dos períodos mais
surpreendentes da história da Igreja. Enfraquecida, conservadora, muitas vezes
considerada moribunda por alguma das boas cabeças do século XIX, dividida
contra si mesma, [com o Concílio Vaticano II] ela inicia uma espécie de
ressurreição cuja importância e alcance muitos cristãos não avaliam. (…) Não
que esse concílio tenha cumprido tudo o que prometeu; poder-se-ia até afirmar o
contrário. Mas o abalo provocado dentro da imensa máquina eclesiástica
modificou as regras do jogo. A Igreja não foi mais a mesma. (…) era preciso
acreditar, com uma ingenuidade ou uma inteligência de santo, que o mundo
esperava uma linguagem ao mesmo tempo muito antiga e totalmente nova. Ninguém
pode prever aonde nos levará essa mutação da Igreja Católica. O impulso cairá
tão depressa quanto surgiu? O movimento ecumênico vai se apagar ou, ao
contrário, levar tudo o que estiver na frente? Nossos filhos assistirão à
reunificação do cristianismo? E a humanidade do novo milênio constatará que sua
vontade de confiança no homem não tem muito sentido se não se enraizar no
antiquíssimo profetismo judaico-cristão?” (pp. 452-453.463).
Isto posto,
prossegue o autor de Tu és Pedro: (…) O futuro permanece totalmente
imprevisível. Mas o presente já permite entrever novos horizontes. Caminhamos
todos juntos de um mistério a outro.” (p. 464).
FAGGIOLI, Massimo.
Vatican II: the battle for meaning. Mahwah, New Jersey: Paulist Press, 2012.
Resenha de: CALDEIRA, Rodrigo Coppe. “Vaticano II: a batalha pelo significado.
Uma análise de Rodrigo Coppe Caldeira”. IHU-Online, 7 de julho de 2012.
(Disponível online em: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/511178-vaticano-ii-a-batalha-pelo-significado-uma-analise-de-rodrigo-coppe-caldeira).
HORIZONTE –
Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da PUC-MG. Belo
Horizonte, v. 9, n. 24 (especial), dezembro de 2011 – Dossiê: “Concílio
Vaticano II: 50 anos”. (Disponível online em http://periodicos.pucminas.br/index.php/horizonte/issue/view/152).
IGREJA
GRECO-MELQUITA CATÓLICA. A Igreja Greco-Melquita no Concílio. Discursos e
notas do Patriarca Máximo IV e dos prelados de sua Igreja no Concílio Ecumênico
Vaticano II. São Paulo: Loyola / Eparquia Melquita do Brasil, 1992.
(Parcialmente disponível em: http://tinyurl.com/c776zon).
PAPA JOÃO
XIII. “O discurso da lua”. Cidade do Vaticano, 11 de outubro de 1962. (Tradução
de Pablo Lima e Tiago Freitas. Disponível em: http://www.patiodosgentios.com/espiritualidade/o-discurso-da-lua/).
PAPA JOÃO
XXIII. “Discurso de Sua Santidade Papa João XXIII na Abertura Solene do SS.
Concílio”. Cidade do Vaticano, 11 de outubro de 1962. (Disponível em tradução
para o português em: http://www.vatican.va/holy_father/john_xxiii/speeches/1962/documents/hf_j-xxiii_spe_19621011_opening-council_po.html).
SUFFERT,
Georges. Tu és Pedro: santos, papas, profetas, mártires, guerreiros,
bandidos. A história dos 20 primeiros séculos da Igreja fundada por Jesus
Cristo. (Tradução de Adalgisa Campos da Silva). Rio de Janeiro: Objetiva,
2001. (Parcialmente disponível
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Cardeal Dom Eugenio Sales
Falecimento de D. Eugênio de Araújo Sales
Faleceu nesta segunda-feira o Eminentíssimo Cardeal Emérito do Rio de Janeiro Dom Eugênio de Araújo Sales.
domingo, 24 de junho de 2012
“Admiração eucarística”: a prática litúrgica como fonte para a teologia
Para o jesuíta Cesare Giraudo, a teologia também pode nascer à luz das celebrações litúrgicas. Segundo ele, é preciso desfazer a divisão milenar entre liturgia e reflexão teológica
Por: Moisés Sbardelotto e Patricia Fachin | Tradução: Alessandra Gusatto
“Quando celebramos a santa missa, vamos ao Calvário com os pés da alma e os pés da fé, subimos todos o Calvário naquela primeira Sexta-feira Santa e retornamos ao túmulo do ressuscitado naquele primeiro Domingo da história”. Em outras palavras, “a Igreja vive a partir da Eucaristia”. Esse “estupor eucarístico” é que estimula a pesquisa e a obra do italiano Cesare Giraudo, considerado uma das maiores autoridades em liturgia na atualidade. Padre jesuíta, Giraudo esteve na Unisinos em março, participando da programação da Páscoa IHU 2010, com o curso “Eucaristia: da liturgia à vida”, entre os dias 22 e 25, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Nesta entrevista, concedida, pessoalmente, à IHU On-Line, Giraudo abordou alguns pontos centrais de sua reflexão – como epiclese, a importância da oração dos fiéis e o valor da expressão litúrgica “Kyrie eleyson” –, além de comentar os aspectos mais importantes da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II. Segundo ele, a reforma serviu para aliviar o “edifício” da liturgia e restaurar a sua fisionomia, depois de tantos séculos, para revelar o seu “esplendor”.
Giraudo também defende a dimensão sacrifical da missa. Para ele, é preciso “não ignorar a dimensão sacrifical da missa, porque esta significa o evento pascal”. Na missa, “somos remetidos ao evento pascal para voltar a emergir na morte do Senhor Jesus e morrer ao nosso pecado, ao nosso egoísmo, e voltar a renascer na sua ressurreição”. Por isso, defende que a Igreja deveria encontrar “um caminho de misericórdia” para que todos os cristãos participem dos sacramentos, referindo-se a casais de segunda união e homossexuais. “O sacerdote deve dar a comunhão a todos aqueles que se apresentam para recebê-la. Quem se apresenta à comunhão recebe a comunhão. Depois, cada um, na sua consciência, estabelece o seu comportamento”, resume.
Sacerdote jesuíta italiano e doutor em teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Cesare Giraudo viveu muitos anos em Madagascar, na África, desenvolvendo seu ministério pastoral. Regressando à Europa, lecionou teologia dogmática e liturgia na Pontifícia Faculdade Teológica da Itália Meridional, em Nápoles. Atualmente, é professor do Pontifício Instituto Oriental, na Pontifícia Faculdade Teológica de Nápoles e na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Tem diversos livros publicados sobre liturgia. Aqui citamos os traduzidos para o português: Num só corpo. Tratado mistagógico sobre a eucaristia (Ed. Loyola, 2001), Redescobrindo a eucaristia (Ed. Loyola, 2002) e Admiração eucarística. Para uma mistagogia da missa (Ed. Loyola, 2008).
Giraudo é autor da Edição 50 dos Cadernos Teologia Pública, intitulado Ite, missa est! A Eucaristia como compromisso para a missão.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – O que significou a renovação litúrgica do Concílio Vaticano II e de Paulo VI?
Cesare Giraudo – A reforma litúrgica do Vaticano II foi um evento muito importante. É um pouco como restaurar edifícios: um edifício que atravessou os séculos, que partiu de um original iluminado, com uma arquitetura original muito clara, ao qual sucessivamente foram adicionados novos elementos que, no fim, deixaram o edifício original mais pesado. Basta observar a fachada de nossas igrejas ou prédios. Então, às vezes, quando se vê que aquele edifício não possui mais uma fisionomia precisa e que pertence a estilos diversos, em um certo ponto se faz uma restauração e se tenta, na medida do possível, retirar tudo aquilo que há de pesado e que foi adicionado durante os séculos. E se a operação é bem feita, no fim nos deparamos com o edifício em todo o seu esplendor.
A liturgia vem de longe. A própria liturgia cristã é proveniente da liturgia judaica, do Antigo Testamento e, portanto, atravessou os séculos. Quando lemos sobre a liturgia cristã nos documentos dos Padres da Igreja , começando por Justino , vemos que ela tem uma linearidade perfeita. Por exemplo, a liturgia da missa: o rito introdutório, depois a liturgia da palavra, a liturgia eucarística, com os seus elementos internos, depois o rito conclusivo. Posteriormente, foram sendo adicionados muitos e muitos elementos, sobretudo na parte inicial da missa. A parte essencial foi penalizada, foi reduzida, também foi muito clericalizada, porque os sacerdotes disseram: “Eu faço tudo. Não se preocupem, rezem o terço”. Então, o Concílio Vaticano II disse: “Façamos essa bendita restauração! Tentemos tirar tudo o que foi acrescentado sucessivamente e que fez pesar o rito e veremos surgir uma celebração muito mais simples, mais nítida, mais linear”. Foi essa a operação que Paulo VI fez, e que o Concílio Vaticano II quis.
IHU On-Line – Um exemplo mais concreto?
Cesare Giraudo – Antes, o início da missa comportava muitas orações que não acabavam nunca. O Concílio e a reforma litúrgica reduziram a parte inicial. O “Confiteor” [oração penitencial] era dito duas vezes, e havia muitas outras orações, salmos que não terminavam mais. Reduziu-se essa parte inicial e deu-se espaço novamente às leituras. Antes, as leituras eram feitas rapidamente, pois o sacerdote lia em latim, em voz baixa, para si mesmo. Portanto, a leitura passava num piscar de olhos. Então, o Concílio, reduzindo essas partes que haviam sido acrescentadas, criou espaço para a Liturgia da Palavra, que deve ser proclamada nas línguas faladas de hoje, e não mais pelo sacerdote, mas sim por alguém competente, um leitor. E depois reintroduziram a oração dos fiéis [também conhecida como prece dos fiéis], um elemento importante que, estranha e misteriosamente, havia se perdido com o passar dos séculos. Então, tirando aquilo que tinha sido adicionado abusivamente, redescobriu-se aquilo que realmente conta.
IHU On-Line – O senhor aborda bastante a questão da oração dos fiéis na celebração da missa. Qual a sua importância?
Cesare Giraudo – Eu sou filho de um pedreiro, construtor de casas. Quando eu era menino, sempre ficava atrás do meu pai nos períodos de férias. E meu pai me deu a ideia da estrutura. Pintar uma casa é importante, mas é secundário, pode-se pintar hoje ou amanhã, tanto faz. Mas o que conta é construir bem, uma casa com bons fundamentos. A liturgia também tem a sua estrutura, tem os seus pilares importantes, suas vigas de sustentação. A liturgia se apoia sobre dois pilares. São Justino, mártir no ano 150, era um leigo, nunca celebrou uma liturgia, mas tinha uma compreensão estrutural da liturgia da missa e assim a descreve com base nos dois pilares importantes: discurso descendente da boca de Deus aos nossos ouvidos, e discurso ascendente das nossas bocas ao ouvido de Deus, a oração dos fiéis. O primeiro pilar importante é o discurso descendente, a proclamação das leituras, o momento em que a palavra sai da boca de Deus através da boca ministerial do leitor e chega a nossos ouvidos. Depois de entender a mensagem é que vem o segundo pilar: nós nos levantamos e delegamos as nossas súplicas, é o momento da oração dos fiéis.
Então, é importante falar sobre a liturgia com base na estrutura, pois, muitas vezes, falamos da liturgia enumerando os elementos: na missa se faz isto, aquilo, elenca-se 10, 20, 30 coisas. Mas se enumerarmos as coisas assim, não vemos a diferença: todos os elementos acabam tendo a mesma força. Mas não: existem elementos absolutamente pesados, importantes, que não podem ser deixados de lado, e existem outros que podem estar lá ou não, que têm um valor muito relativo.
IHU On-Line – No curso que o senhor ministrou na Páscoa IHU 2010, o senhor apresentou duas metodologias possíveis para o estudo da eucaristia: a mistagogia patrística e a sistemática escolástica. Pode nos explicar o que são?
Cesare Giraudo – Nós falamos muito do método. O método é importante. O estudante não pode esperar que seus professores lhe ensinem tudo, pois as coisas são muito vastas. É suficiente que lhe seja ensinado o método. Se alguém sair da universidade com um método na área específica que o interessa, poderá caminhar tranquilo na sua profissão. Ora, quando falamos dos sacramentos, sobretudo da eucaristia, temos dois métodos, duas metodologias, e só duas. Porque cada uma delas se caracteriza pela sua relação com o milênio, com um dos dois milênios. Nós temos, atrás de nós, dois milênios de reflexões cristãs, cada um caracterizado pela sua própria metodologia.
Nos tempos dos Padres da Igreja, nos primeiros séculos, nos tempos de Ambrósio , de Cirilo de Jerusalém, de Agostinho , esses grandes bispos da Igreja antiga, quando explicavam o sacramento da eucaristia e também do batismo, explicavam a partir da experiência celebrativa que havia acontecido. Assim, os catecúmenos eram batizados na noite de Páscoa, tinham a experiência celebrativa do sacramento do batismo, da crisma e da eucaristia, e depois o bispo, no dia seguinte, na segunda-feira, os convocava à escola da Igreja e lhes explicava, a partir da experiência celebrativa que haviam tido, o que o sacerdote disse, o que cada um viu, fez, respondeu. A partir da experiência, explicavam-lhes o que o batismo e, sobretudo, a eucaristia são. Ou seja, explicar os sacramentos a partir da liturgia. A liturgia era realmente o livro da escola. As crianças, os jovens, os adultos que iam à escola, o que levavam consigo? O missal, porque este era seu manual de escola.
Mais tarde, no segundo milênio, tudo mudou, porque disseram: “A Igreja é boa para rezar, o missal é bom para rezar, mas para fazer teologia bastam as nossas cabeças”. Então, fizeram uma teologia abstrata, destacada da realidade. Enquanto que, no primeiro milênio, nos tempos dos Padres, a teologia era feita na Igreja, à luz da celebração. Depois separaram as duas coisas dizendo que a liturgia é uma coisa, e a reflexão teológica é outra.
Eu digo que temos duas metodologias: uma boa, aquela escolástica; a outra [patrística] excelente, ótima. Se escolhermos a metodologia excelente, eu digo: “Veja, nós não perderemos nada das conquistas da teologia escolástica de São Tomás [de Aquino] , mas seremos capazes de corrigir aquelas fraquezas metodológicas que de fato existiram”. Porque São Tomás não é a fé cristã. É um grande pensador que disse coisas maravilhosas, mas não podemos fechar os olhos para os limites da escolástica.
IHU On-Line – Como podemos lidar com a afirmação da dimensão "sacrificial" da eucaristia na cutltura contemporânea? Como compreender essa dimensão numa sociedade repleta de tantos sacrifícios por motivos econômicos, culturais, etnico-raciais, dentre outros?
Cesare Giraudo – A palavra sacrifício tem muitos significados. Agora, quando a palavra sacrifício é aplicada ao sacrifício da cruz, muitas vezes, temos medo dessa palavra, pois ela nos faz pensar na Sexta-feira Santa, na morte de Jesus, que nos incute medo. Mas quando falamos de sacrifício, sacrifício da cruz, não podemos nos esquecer que a Sexta-feira Santa não é o ponto final, mas é a ponte que nos abre ao Domingo de Páscoa, é a passagem para o Domingo de Páscoa. Então, quando dizemos “o sacrifício da cruz”, tenhamos presente que esse é o evento pascal, o evento do Cristo morto e ressuscitado. Ora, a dimensão da ressurreição é absolutamente positiva. Nunca devemos esquecer que, quando falamos de sacrifício, essa palavra quer dizer a ressurreição, a vitória final.
Tudo isso aplicado à eucaristia é importante, pois, hoje, muitas vezes, os nossos sacerdotes têm medo de falar da dimensão sacrifical da missa. Então, quando a iniciam, limitam-se a sublinhar a dimensão convivial: “Estamos aqui reunidos, irmãos e irmãs, para festejar juntos ao redor de uma única mesa…”. E por que dizem isso? Porque pensam: “Se eu que estudei tanto, estudei livros tão grossos, já tenho dificuldade para entender o que significa a dimensão sacrifical, como posso querer que os outros entendam?”. E assim pulam essa dimensão, limitando-se a sublinhar a outra. Eu digo que muitos sacerdotes católicos são cripto-protestantes, protestantes escondidos, com boas intenções, obviamente. Limitam-se a destacar a dimensão da ceia. Ora, João Paulo II, na sua carta encíclica “Ecclesia de Eucaristia” , fez soar o alarme. E disse: “Fiquemos atentos para não ignorar a dimensão sacrifical da missa, porque esta significa o evento pascal”.
Quando celebramos a santa missa, leigos e fiéis juntos, vamos ao Calvário com os pés da alma e os pés da fé, subimos todos o Calvário naquela primeira Sexta-feira Santa, retornamos ao túmulo do ressuscitado naquele primeiro Domingo da história. Somos remetidos ao evento pascal para voltar a emergir na morte do Senhor Jesus e morrer ao nosso pecado, ao nosso egoísmo, e voltar a renascer na sua ressurreição. Mas para sermos coenvolvidos no evento pascal, devemos comer, beber, fazer a comunhão sacramental. Então, são as duas faces da Eucaristia (ceia e sacrifício) que devem ser mantidas juntas. Esta é a mensagem da encíclica de João Paulo II: a Igreja vive a partir da Eucaristia. E eu gostei muito dessa mensagem e a retomei em um livro que intitulei “Estupor eucarístico”, que foi publicado agora em português pelas Edições Loyola, sob o título “Admiração eucarística”.
IHU On-Line – Mas o sacrifício é sofrimento ou amor? Alguns teólogos defendem que Jesus nos salvou pelo amor, e não pelo sofrimento.
Cesare Giraudo – O sofrimento não é um valor em si mesmo. Mas o sofrimento tem valores. Tomemos uma pessoa que nunca sofreu. Bem, sobre isso você coloca a mão no fogo: essa pessoa é uma pessoa egoísta, fechada sobre si mesma. Do contrário, uma pessoa que sofreu na sua vida é uma pessoa aberta para o sofrimento dos outros. E com isso não dizemos que o sofrimento é um bem: o sofrimento é um mal, mas traz consigo um bem. E então o sacrifício comporta sofrimento ou amor? Comporta as duas coisas juntas. Há um provérbio em italiano que diz: “Não há rosas sem espinhos“. Quando você vê uma rosa, o que quer da rosa? O seu perfume, a beleza das suas cores, mas você não pode sentir o perfume da rosa prescindindo de seus espinhos. E em malgache [língua falada em Madagascar] também há um provérbio que diz: “Aquilo que é doce é fruto daquilo que é amargo”. Certamente, na nossa vida, buscamos as coisas doces e belas, mas estas são alcançadas na medida em que aceitamos os sofrimentos, as experiências amargas da vida.
IHU On-Line – Qual o significado do “Kyrie eleyson” na celebração da missa?
Cesare Giraudo – “Kyrie eleison” é uma expressão em grego. É uma daquelas expressões que são intraduzíveis, como tantas outras expressões hebraicas: amém, aleluia, hosana, que permaneceram assim em todas as liturgias em qualquer língua. A expressão “Kyrie eleison”, que é muito antiga, é usada, sobretudo, como resposta aos pedidos da oração dos fiéis. Mas o que significa “Kyrie eleison”? Em português, vocês traduziram por “Senhor, tende piedade de nós”, uma tradução que é boa, mas insuficiente. Em italiano, traduziram como “Signore, peità” [Senhor, piedade], mas é uma expressão que dá pena, é miserável.
Se desejamos entender as duas palavras, a primeira palavra é “Kyrie”, que significa “Senhor, ó Senhor”. A segunda é “eleyson”, um verbo da língua grega que é interessante que seja lido na sua essência hebraica, pois, sob o grego do Novo Testamento, sempre está o hebraico, a língua sagrada para os judeus e para nós. Quando prestamos atenção à língua hebraica, o que está sob esse verbo? Há uma palavra muito interessante, que, quando traduzida em italiano ou português, significa “ventre materno”. Quando o filho está em dificuldade, são as entranhas da mãe que se agitam para ir ao encontro do filho, porque o filho é parte irrenunciável da mãe. Ora, Deus é pai e mãe ao mesmo tempo. Uma vez, o Papa João Paulo I , no seu pontificado brevíssimo, o Papa do Sorriso, disse: “Caros fiéis, Deus é pai e mãe”. Lembro-me que os jornalistas começaram a escrever rios de artigos dizendo: “Oh, vejam que coisa linda que o Papa disse: que Deus é mãe”. Mas os jornalistas não sabiam que a escritura diz isso: Deus é pai e mãe ao mesmo tempo.
Portanto, quando os doentes, os cegos, os leprosos se dirigem a Jesus, o que dizem a Ele? Dizem: “Senhor, tende piedade de nós, 'Kyrie eleison'”. Ora, Jesus, filho primogênito do Pai, reassume tudo do Pai. Por isso, Jesus tem as entranhas paternas e maternas com relação a nós. Então, quando os leprosos do Evangelho lhe gritavam “Senhor, piedade”, diziam “Senhor, dá livre vazão às tuas entranhas maternas e paternas. Deixa-te comover por nós”. E Jesus, efetivamente, se deixa comover, cura os cegos, lhes dá a visão, cura os leprosos etc. Essa expressão é muito interessante. Por isso, seria bom mantê-la assim, em grego, “Kyrie eleison”. Por que jogar fora tudo aquilo que havia de latim ou aquelas poucas palavras gregas como “Kyrie eleison”? Elas têm um significado. São palavras que fazem a unidade dos cristãos. Quando um cristão vem de outro país com outra língua e vê esta ou aquela palavra que já são usadas em seu país, isso é um valor. Então, a tendência para alguns seria retomar o “Kyrie eleison” e também retomá-lo como resposta à oração dos fiéis. Isso seria muito bonito.
IHU On-Line – E o que é a epiclese, conceito abordado pelo senhor em seu curso?
Cesare Giraudo – A questão da epiclese é muito rica. Significa súplica, a invocação para que Deus Pai mande o Espírito Santo sobre o pão e sobre o vinho para que se tornem o corpo e sangue do Senhor. E, depois, a segunda súplica, para que O mande sobre nós para que nos tornemos um só corpo, o corpo místico da Igreja. Os Padres da Igreja, Ambrósio especialmente, eram muito sensíveis à epiclese. Portanto, com a pergunta “Queres saber como se consagra com as palavras celestes?”, Ambrósio se refere à parte central de seu cânone romano que vai da súplica-convite do Espírito Santo sobre os dons à súplica do Espírito Santo sobre nós, que têm, em seu interior, o relato institucional com as palavras do Senhor.
Com a teologia abstrata do segundo milênio, toda a atenção se voltou única e exclusivamente sobre as palavras da consagração, reduzidas depois aos termos “Isto é o meu corpo”, “Isto é o meu sangue”. E não prestaram mais atenção ao resto. Por isso, a epiclese, que continuou existindo mesmo assim na liturgia e ainda hoje a encontramos, saiu completamente do horizonte dos teólogos, dos liturgistas, com um grave dano para a compreensão da teologia da eucaristia. E somente agora a Igreja voltou a descobrir a riqueza dessa oração, da oração eucarística em seu todo.
IHU On-Line – O que o senhor pensa sobre a retomada do missal de Pio V, da chamada Missa Tridentina, por parte de Bento XVI?
Cesare Giraudo – O Papa Bento XVI foi bom, eu diria até muito bom. Quis ir ao encontro da nostalgia de alguns grupos de cristãos, que dizem ser muito aficionados ao latim e que não querem renunciar a ele. Por isso, pediram para poder usar o missal em latim de São Pio V , precedente à reforma litúrgica. Mas a questão não é que esses fiéis queiram bem ao latim pelo latim. O latim serve um pouco como uma barreira para sustentar determinadas visões da Igreja e do mundo de hoje. Já que esses grupos de fiéis de direita, sem ofender ninguém, pediram para obter isso, o Papa, muito bom, disse: “Sim, vocês também podem usá-lo”. Assim, concedeu um uso duplo do missal, recolocando o missal de Pio V ao lado do missal da reforma litúrgica de Paulo VI, que continua sendo o missal de base.
Isso criou um pouco de desconforto dentro da Igreja, quase como se a Santa Igreja, a Igreja de Roma, a autoridade, quisesse desfazer a reforma litúrgica. Mas não foi isso. O Papa o fez por motivos de ecumenismo interno. Então, quem quiser celebrar com o missal de Pio V, que o use. Mas não nos esqueçamos que se um Concílio quis que a reforma litúrgica fosse feita, se um Concílio quis que o edifício fosse restaurado, quer dizer que isso era necessário. Ora, a reforma litúrgica foi feita, belíssima no seu projeto, realmente quase perfeita. Mas, pelo contrário, foi frágil, terrivelmente fraca em nível de recepção. Por isso, muitos receberam a reforma litúrgica de maneira muito superficial, mudando continuamente, com celebrações superficiais e pobres. Por isso, com razão, o Papa disse: “Fiquem atentos: não podemos perder o sentido do sagrado”.
Então, esse “motu proprio” do Papa que dá a possibilidade de usar o missal de São Pio V, mesmo que nos tenha colocado em crise, soa como um sinal de alarme, dizendo: “Fiquemos atentos: não podemos perder a dimensão sagrada, o sentido do sagrado e da seriedade da celebração”. Por isso, nós, sacerdotes, leigos comprometidos, devemos trabalhar muito na formação dos sacerdotes, dos futuros sacerdotes, dos leigos para entender o sentido da liturgia. Eu, na minha pequenez, tenho me empenhado muito nesse sentido.
IHU On-Line – Comparando os últimos Papas, como eles viveram e refletiram sobre as questões litúrgicas?
Cesare Giraudo – Aquele que teve mais oportunidades para refletir sobre a liturgia foi Paulo VI, evidentemente, que foi encarregado pelo Concílio para editar as edições dos livros litúrgicos. Todos os especialistas lhe traziam os originais para que ele os visse, e ele fazia as suas observações, que foram depois registradas em livros. Portanto, ele seguiu mais de perto a revisão do missal e de todos os livros litúrgicos. Dos Papas que vieram depois, João Paulo I não teve tempo, ficou um mês somente. João Paulo II, nos seus 27 anos de pontificado, não se interessou pessoalmente pela liturgia. Esta ia para frente por conta própria. O seu nome ficou ligado à terceira edição do missal romano, pois foi ele que a quis e fez alguns pequeníssimos retoques. O Papa Bento XVI, no momento, ainda não ligou o seu nome à liturgia de forma positiva, senão indiretamente através dessa sua intervenção, de retomada também, com relação ao missal de São Pio V. Isso corresponde um pouco à sua sensibilidade. Ele fez essa operação por um excesso de bondade para ir ao encontro das exigências de alguns.
IHU On-Line – O senhor propõe uma releitura da teologia da redenção a partir de um mito pré-cristão transmitido por um idoso de Madagascar? Que mito é esse?
Cesare Giraudo – Eu vivi dez anos no Madagascar, sempre trabalhando com a pastoral direta e trabalhava muito com os idosos. No grupo, éramos três sacerdotes; os outros dois eram irmãos mais velhos do que eu e trabalhavam com a pastoral dos jovens, e eu, mais jovem, trabalhava com a pastoral dos idosos. E me dei conta de que os idosos sabem, têm experiência, conhecem a tradição. Então, eu realizava encontros, semanas de estudo, em que os idosos participavam, pessoas de 70, 80 anos que ficavam toda a semana refletindo. Eles me contaram muitas coisas belíssimas, alguns mitos teológicos. Bem, coloquemos a palavra mito entre aspas. Essa palavra tem um grande significado para a história das religiões. São relatos fundamentais, que têm a mesma força e sacralidade que os relatos que temos na Bíblia, como em Gênesis 2 e 3, a história de Adão e Eva. Se quisermos, aquilo que a Bíblia é para nós, para eles se trata de uma sagrada escritura, escrita na mente e na tradição.
Essas histórias têm milhares de anos, são muito antigas. Uma delas fala justamente da redenção que passa pelo sacrifício do animal sagrado. Para os judeus, o animal sagrado é o cordeiro, em particular, o cordeiro pascal. A reconciliação, a redenção se dá através do sacrifício do cordeiro pascal. Em Madagascar, se fala do sacrifício do boi, que é o animal sagrado por excelência. Então, quando há um caso de dificuldade, uma ruptura da relação por um determinado comportamento, aquela pessoa deverá ser aspergida com o sangue do animal. Haverá um rito sacrifical, uma oração ao Criador em que se suplica a Deus que intervenha e recoloque essa pessoa na situação certa, graças justamente à aspersão do sangue do boi.
Esse texto é um pouco difícil. Para entendê-lo melhor, seria necessário mais tempo. Mas é uma história maravilhosa que nos ajuda a entender a eficácia do sacrifício do cordeiro pascal, mas, sobretudo, a eficácia do verdadeiro cordeiro pascal, em cuja morte nós renascemos para a vida nova. Eu me interessei muito pelos problemas da inculturação, escavando sempre na tradição dos antigos. Porque, às vezes, os missionários pensaram que todas essas coisas eram uma questão de idolatria, paganismo. Mas não, isso é revelação autêntica, inicial, incipiente, que espera ser completada pelo anúncio do Evangelho.
IHU On-Line – Qual a sua opinião sobre uma maior participação das mulheres na celebração da missa?
Cesare Giraudo – Certamente, a Igreja, por muitos anos, foi muito machista, muito clerical e, assim, penalizou o povo de Deus. Os sacerdotes começaram a dizer: “A gente faz, fiquem tranquilos, fiquem nos bancos, nós fazemos tudo”. Assim, clericalizaram a liturgia. E, ao mesmo tempo, a liturgia foi também masculinizada, no sentido de que a mulher na Igreja não podia superar a barreira do balaústre, aquela mesa da comunhão que havia nas igrejas antigas. Se a mulher fosse além dela, era um pecado mortal. As mulheres só podiam ultrapassar aquela barreira no sábado, quando faziam a limpeza da Igreja. Tudo isso agora já foi superado, e não existe mais, por sorte. A Igreja se purificou disso.
Mas qual pode ser a participação da mulher na missa? Eu penso que, sobretudo, no papel das leituras. Paulo VI revisou aquelas que se chamavam antigamente as ordens menores, que hoje se chamam leitorado e acolitato. Ele disse que os leigos também podem ter acesso ao leitorado. Assim, Paulo VI manteve o leitorado instituído – ir ler com a bênção preliminar – somente para os homens, pois Paulo VI teve um pouco de medo desse vento que vinha do Atlântico, da América, soprando sobre o Ocidente, que era a reivindicação do sacerdócio feminino. E disse: “Não, por agora o reservemos aos homens”. Mas nada impede que um dia o Papa abra oficialmente à mulher o leitorado instituído, que ela também possa ser instituída com uma bênção como uma leitora na Igreja. Agora, a mulher já pode ler, podemos dizer, como leitora extraordinária. E depois, hoje são todos extraordinários, porque esse leitorado instituído se perdeu de vista. Em todo caso, a mulher lê e isso é uma coisa boa. Eu penso que esse discurso deve ser moderado, não se trata de mandar um exército de pessoas a ler, mas se trata de mandar poucas pessoas, que são preparadas, que seguem cursos específicos de preparação, sejam elas homens ou mulheres. Pois ler na Igreja, proclamar a palavra de Deus é muito difícil, muito comprometedor.
IHU On-Line – O que o senhor pensa sobre a participação de divorciados de segunda união na comunhão eucarística? E de homossexuais? As regras atuais não transformam a eucaristia em uma forma de exclusão?
Cesare Giraudo – Não sou eu quem pode resolver o problema. Certamente, na minha experiência pastoral em Madagascar, eu sofri por causa disso, porque quando um jovem e uma jovem me diziam: “Queremos nos casar”, eu sempre dizia: “Vão devagar, com calma”. Porque eu sabia bem que se eu abençoasse aquele casamento, um ou dois meses depois ele acabaria, e aqueles jovens teriam dificuldades para toda a vida. Porque, em Madagascar, o matrimônio ainda hoje é muito instável, acaba facilmente, assim como em nossos países, seja na Europa ou no Brasil.
Então, eu vejo cristãos que possuem uma fé verdadeira, mas que se encontram em uma situação desconfortável. Não podem ir para frente, não podem voltar. Têm o compromisso matrimonial de um lado, têm um compromisso familiar de outro. Então, eu me pergunto: a Igreja não poderia encontrar um caminho possível para eles? Ou até um caminho de misericórdia, como muitas vezes os orientais chamam? Não se trata de abençoar a situação atual, de dizer “Fizeram certo ao acabar com o primeiro casamento”. Não se trata de aprovar isso. Trata-se simplesmente de dizer, na situação atual, que esse cristão e essa cristã têm a necessidade dos sacramentos, o sacramento da confissão, o sacramento da eucaristia. A Igreja não poderia encontrar um caminho de misericórdia para conceder a esses cristãos os sacramentos? Mas não sou eu quem estabelece isso.
Também se falou disso durante o Sínodo dos Bispos, há dois ou três anos, sobre a eucaristia, e um bispo disse: “Aqui, só o Papa pode resolver o problema”. E nós aguardamos com confiança por uma intervenção magisterial do Papa. E o que o Papa diz para os divorciados e que também se aplica a outras pessoas em dificuldade, homossexuais etc., é que naturalmente seria preciso que essas pessoas pudessem fazer um caminho com um guia, um sacerdote. Não se trata de dar o aval, de dizer: “Vocês fizeram certo”, mas é necessário que se entenda que na vida existem comportamentos difíceis e que, nesses comportamentos, devemos buscar retirar todo o egoísmo, tudo o que é diretamente contrário ao Evangelho. E depois tentar dar o nosso melhor, com a ajuda do Senhor, para nos adequarmos sempre melhor aos ideais do Evangelho, que permanece sendo um ideal. Não podemos dizer: “Eu coloco em prática os ideais do Evangelho”. Aquele que presume tê-lo posto em prática é o primeiro a ser infiel ao Evangelho. O Evangelho é um grande ideal, e devemos pedir ao Senhor que nos ajude a caminhar rumo a esse ideal com as dificuldades que são as nossas. O problema, porém, continua sendo complexo.
IHU On-Line – E o mesmo vale para os homossexuais?
Cesare Giraudo – Sim, eu diria que sim. Trata-se de refletir sobre esse caso. Não dá-lo por óbvio, porque, hoje, na sociedade, essas diferenças são consideradas normais. Portanto, não devemos confundir a normalidade com eventuais desconfortos. Poderíamos chamá-los por muitos nomes. Pelo contrário, hoje, há a tendência de dizer: “Você faz assim, você faz assado, faça como quiser”. Mas não, não podemos aceitar isto na Igreja. Com o respeito, naturalmente, pela opinião pessoal de cada um. Sobretudo, hoje em dia, somos muito flexíveis com relação a isso. Não devemos condenar ninguém. Jesus nunca condenou ninguém no Evangelho. Ele sempre desculpou o pecador, condenando, porém, o pecado ou o comportamento anômalo.
IHU On-Line – Portanto, os divorciados e os homossexuais, na sua própria consciência, podem participar da comunhão se o sacerdote não souber de sua situação?
Cesare Giraudo – O sacerdote deve dar a comunhão a todos aqueles que se apresentam para recebê-la. Nenhum sacerdote tem direito de olhar para a cara das pessoas e dizer: “A você sim, a você não”. A menos que venha alguém que esteja claramente bêbado, que não consegue ficar de pé. Se você lhe negar a comunhão, não estará lhe ofendendo. Todos podem ver o porquê. Mas, senão, quem se apresenta à comunhão recebe a comunhão. Depois, cada um, na sua consciência, estabelece o seu comportamento.
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